Autor: MuseuAcuDoc

Doceiras do Serido

O primeiro encontro de Doceiras do Seridó

A doçaria é uma atividade secular que está dentro das residências.

A economia do Seridó pode ser fomentada a partir desse patrimônio cultural”.

(Pedro Medeiros)

O Primeiro Encontro de Doceiras do Seridó realizado em Caicó/RN, entre os dias 27 e 28 de setembro último, pela JK Produções e Eventos, contou com a presença de setenta doceiras de doze municípios da região do Seridó. Com o intuito de divulgar o potencial do doce seridoense, patrimônio cultural alimentar da região, além de incrementar o turismo cultural, Diego Vale (diretor da JK Produções), reuniu produtores, artesãos e confeiteiros em torno do Largo da Catedral de Santana.

O projeto do evento foi contemplado no Edital de Economia Criativa 2019, do Sebrae/RN, além de reunir parceiros como o Município de Caicó, SENAC, e Sistema Comércio RN, SESI e FIERN, Fundação José Augusto, Governo do Estado, IFRN, Paróquia de Sant’Ana e Rede Seridó. Dentre as atividades, o evento contou com um concurso para eleger os melhores doces da região, oficinas de doces típicos, oficinas de receitas inovadoras, a feirinha de doces, produtores e artesanatos da região, a participação de pesquisadores, e o lançamento do livro “Comida da Terra: notas sobre o sistema alimentar do Seridó” de Julie Cavignac, Muirakytan K. de Macedo, Danyccele Silva e Maria Isabel Dantas.

Para explicar o Seridó, aproprio-me de um trecho da introdução do livro mencionado, Comida da Terra, em que os autores afirmam: “As fazendas de gado instaladas no Seridó foram os primeiros núcleos de colonização que deram origem às cidades contemporâneas, constituindo-se como microcosmos estruturados pelas demandas da economia e da sociedade colonial. Dado sua persistência no tempo, o modelo de sociabilidade construído a partir da convivência nas ‘casas de morada’ rural imprimiu marcas profundas na emergência de um ‘estilo seridoense’, formulado em termos de um exercício identitário que agencia a religiosidade, as festividades, a cultura material e as representações míticas e artísticas. Entre essas manifestações, a alimentação aparece como um bem cultural que tem significativa centralidade na reivindicação de uma identidade regional revigorada durante as celebrações de padroeiros, as festas de São João ou em julho, no período das colheitas, momentos em que a família se reúne para degustar as ‘comidas de raiz’; ocasião em que é experimentada uma volta às origens, momentos privilegiados para reencontrar sons, cheiros, gostos, emoções e sabores esquecidos”.

Na região do Seridó, encontramos doces singulares, entre eles o Chouriço que é um doce de sangue de porco com banha de porco, leite de coco, rapadura, farinha de mandioca castanha de caju e especiarias cozidos em um tacho por cerca de oito horas; o filhós que é um doce frito servido com mel de rapadura; o forrumbá que é um doce de bagaço de coco com rapadura; e o doce seco.

De acordo com Luís da Câmara Cascudo, os filhós aparecem “registrados no século XIV. Popularíssimos em Portugal. Doce do Carnaval. Filinto Elísio, exilado num Paris melancólico de 1808, lamentava-se, vendo o Carnaval francês: ‘Um dia de Comadres, sem filhoses!’ Servidos sob polvilho de açúcar. Nalguns pontos do Brasil obriga à calda de açúcar”.

A oficina de doce seco foi um dos momentos mais aguardados do evento, por tratar-se de um saber que está se perdendo. Esse é um tipo de pastel recheado com espécie. Não é assado, nem frito, apenas seca-se a massa à temperatura ambiente. A espécie é um doce de origem árabe, muito comum em doces portugueses mais antigos, como os fartes.

Câmara Cascudo descreve doce seco como “a casca é a farinha de mandioca, fina, feito angu, seca, com outra porção de farinha para abrir o ponto. A espécie, recheio, é feita de farinha de mandioca, sessada em peneira fina, gengibre, gergelim, castanha de caju, pimenta-do-reino, cravo, erva-doce, mel de rapadura. É um dos doces típicos na Noite de Festa, Dia do Natal, São João, São Pedro e Ano Novo”.

A doceira Betinha, moradora de Caicó, foi a responsável pela transmissão desse saber na oficina de doce seco. A massa é produzida com farinha e água que depois é bem trabalhada. Em seguida, faz-se bolas semelhantes às de ping-pong que são abertas com um rolo de massa. No centro da massa é colocada uma porção de espécie, e o pastel é fechado para, em seguida, ser pintado. Depois deve secar para ficar com uma textura firme.

Doceiras do Serido
Abrindo a massa para colocar o recheio

Doceiras do Serido
Doces secos prontos para serem decorados

Doceiras do Serido
Pintura do doce com corante alimentar

Doceiras do Serido
Doce seco finalizado

O Seridó possui um importante acervo virtual de seu patrimônio cultural do doce apresentando seus doceiros e doceiras, disponível em: http://docesdoserido.com.br/

Mais informações sobre o evento podem ser encontradas na página: https://web.facebook.com/doceirasdoserido/?_rdc=1&_rdr,

Vídeo: Doce Seridó está disponível no link: https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=136072541105838&id=101129917933434&sfnsn=scwspmo&d=n&vh=e

 

 

por Lucia Soares

 

 


Referências:

CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição no Brasil. Belo Horizonte/MG: Ed Itatiaia e São Paulo/SP: EDUSP 1985, pp. 218-223.

CAVIGNAC, Julie A. et al: Comida da Terra: notas sobre o sistema alimentar do Seridó. Natal: Sebo Vermelho, 2018, p.7.


 

Um doce de tabuleiro

Na Bahia e, em especial, na cidade do São Salvador, todos conhecem um tradicional doce feito a punho, o estimado e saboroso “bolinho de estudante” ou “punheta”, que faz parte do cardápio do tabuleiro da baiana, que é também marcado por outros doces como: cocadas brancas e pretas; doce de tamarindo, servido em gamela de madeira; lelê de milho; que se unem as comidas salgadas como: acarajé, abará, vatapá, molho de pimenta – molho Nagô –, entre outras delícias.

O tabuleiro é um conjunto formado pelas comidas e pela baiana, que juntos se tornaram um dos mais notáveis símbolos urbanos de matriz africana; e, por isso, receberam o reconhecimento patrimonial por parte do Estado Nacional, e passaram a ser considerados patrimônio do Brasil.

doce-de-tabuleiro
Foto de Jorge Sabino

O bolinho de estudante, uma receita afro-baiana, certamente ganha este nome por ser frito no final da tarde, hora que os estudantes saem dos colégios, e passam pelas esquinas e adros aonde estão arrumados os tabuleiros.

O bolinho de estudante é um doce feito com massa de tapioca, coco; e depois de frito é polvilhado com açúcar e canela. E necessário grande habilidade para se fazer a receita no momento de manipular a massa, de dar com o punho o movimento certo para que fique macia. Então, modelam-se os bolinhos que são fritos no óleo de milho ou no azeite doce. O bolinho, quando comido, quente, é muito mais saboroso, com sua casquinha crocante.

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Vinho de Jenipapo

Para se obter o vinho de fruta segue-se uma técnica diferente do vinho de uva. Os chamados vinhos de frutas, como, por exemplo, caju, jenipapo, jabuticaba, banana, maçã, mostram as opções de frutas tropicais e exóticas.

Estes vinhos são feitos com frutas muito maduras, para assim se conseguir maiores quantidades de açúcares. Açúcares simples, fermentáveis – frutose, sacarose e glicose –, que são acrescidos de álcool, cola, metabissulfito de sódio, ácido cítrico e água.

Neste processo, aproveita-se exclusivamente o sumo das frutas. O sumo é filtrado para se retirar as partes sólidas, aí então este sumo, “vinho”, permanecerá por quinze dias em fermentação. Esta bebida torna-se muito doce, e é tradicionalmente servida antes de uma refeição, para brindes; para acompanhar sobremesas doces e o café.

licor jenipapo

Estes tipos de vinhos, além de terem fabricação industrial, também têm uma variada e criativa produção artesanal e, muitas vezes, doméstica. Trago como exemplo o vinho de jenipapo, branco e licoroso, da indústria paraibana de Tito Silva, fundada no final do século XIX.

O jenipapo – Genipa americana L. – é uma fruta nativa do norte da América do Sul, e que tem grande valor nutricional, sendo rica em ferro, cálcio; vitaminas B1, B3, B5 e C; também rico em fibras e proteína. Sua extensão, e uso culinário, está também na América central, México e Antilhas. No Brasil, há diferentes tipos de doces, sucos, licores e vinhos, e o jenipapo integra cardápios e hábitos alimentares nacionais.

Destaque nesta produção da indústria de Tito Silva para os rótulos dos seus vinhos de frutas, que são testemunhos estéticos das artes gráficas desta época. São também importantes registros da história da alimentação, e do patrimônio cultural do Nordeste.

Estes rótulos estão reunidos na Coleção Tito Silva, que está sob a guarda da Fundação Joaquim Nabuco no Recife. Assim, trago um dos seus rótulos do início do século XX, que identifica um dos seus produtos mais populares, o vinho de jenipapo.

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Gullac: o doce do Ramadã

No mundo mulçumano, o Ramadã é uma grande celebração que dura um mês, e é dedicado ao jejum e a reflexão sobre o Alcorão, e os preceitos do Islã. O jejum diário termina quando a primeira estrela aponta no céu, e então as comidas são partilhadas como um ritual de agradecimento a Alá.

 

Foto de Jorge Sabino

 

O período do Ramadã é também dedicado a recuperação e a preparação de receitas tradicionais, conforme o terroir. Assim, é valorizado a comida e o que ela representa enquanto símbolo de natureza, de fartura e de humanidade.
Do elaborado cardápio do Ramadã, trago uma receita tradicional da Ásia Menor, Turquia, que é o gullac, este doce significa a busca e o encontro da doçura da vida.

O gullac é preparado com uma massa fina feita à base de amido de milho misturado com farinha de trigo. Esta massa é disposta em camadas que são intercaladas com nozes, e sobre a última camada são colocadas nozes, romãs, e outras frutas. Esta receita, considerada como uma das mais antigas do Império Otomano, ainda é complementada com leite e água de rosas.

 

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Cocada

A saga do açúcar de cana transformou os conceitos e os hábitos alimentares durante a colonização do Brasil; e, a partir daí, foram trazidas muitas frutas do Oriente para cá, como é o caso do coco procedente da Índia.

cocada
Foto de Jorge Sabino

A cocada surge de uma receita que mistura o coco seco com o açúcar, que são levados ao fogo; depois de pronto é posto num tabuleiro para secar. Este doce se torna uma das referências mais imediatas da doçaria brasileira. Contudo, destaque para uma receita tradicional indiana chamada de kobbari mithai, um doce feito com coco seco ralado e rapadura derretida, que são levados ao fogo até ficar pronto; depois, põe-se para secar sobre um tabuleiro; e aí são cortados os quadrados.

No Brasil, a cocada é apreciada de Norte a Sul, e recebe diferentes acréscimos e interpretações, o que cria novos estilos e marcas autorais. Também, a cocada se tornou um tipo de doce muito popular dos tabuleiros e das vendas ambulantes. A presença marcante do coco – Cocos nuscifera – nos cardápios do Brasil representa um encontro entre o Ocidente e o Oriente, e é assim que se notabiliza uma cozinha multicultural.

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A Indústria Nordestina de Refrigerantes

Por Frederico de Oliveira Toscano

O mercado brasileiro de refrigerantes é dominado por marcas do eixo sul-sudeste, como o Guaraná Antárctica, ou estrangeiras, como a poderosa Coca-Cola. Mas nem sempre foi assim. Desde o século 19 que se fabricam bebidas gasosas não-alcóolicas no país, algumas caseiras mesmo. Imigrantes europeus trouxeram conhecimentos, técnicas e equipamentos ao Brasil, passando a produzir refrigerantes em fabriquetas de fundo de quintal. No Nordeste, o rótulo mais famoso foi o da Fratelli Vita. Os irmãos Francesco e Giuseppe Vita deixaram a cidade italiana de Trecchina e empreenderam a longa viagem marítima até o Brasil em busca de uma vida melhor. Se fixaram inicialmente na Bahia, ainda em 1889, ganhando a vida com serviços diversos e empreendendo.

Foi assim que, três anos depois de sua chegada ao país, inauguravam a empresa Fratelli Vita, aludindo ao parentesco que era a base de sua sociedade. Em um prédio de estilo inglês em Salvador, passaram a fabricar a primeira água tônica do Brasil, com quinino importado da Inglaterra. Também fabricaram conhaques, vinhos e licores, inclusive com uso de frutas da terra, como o jenipapo e o murici. Mas a religiosidade falou mais alto e, apesar do sucesso, os irmãos Vita decidiram encerrar a produção de bebidas alcóolicas e se dedicar à de refrescos gaseificados, com sabores como uva, cereja, limão, morango, ameixa e pera. Foi assim que, em 1907, nascia a primeira grande marca nordestina de refrigerantes.

Não demoraram a expandir. Já em 1913 inaugurava-se uma filial na cidade mais política e economicamente importante da região, o Recife. A primeira fábrica, acanhada, funcionava nos fundos de um sobrado na Rua da Imperatriz. Com o sucesso das vendas, logo passariam à sua sede definitiva, no prédio da antiga Sede do Arcebispado de Olinda e Recife, na Soledade. Lá, se produziam não apenas os refrigerantes, mas também gelo da marca Polar, águas minerais, tônicas, sucos e até uma cerveja sem álcool, a Cervejina. O carro-chefe acabou sendo o guaraná, fruto trazido do norte do país, que conseguia conjugar uma aura de brasilidade e, ao mesmo tempo, certo exotismo, caindo no gosto do público. Naquela primeira metade do século 20 os negócios iam muito bem, mas a Fratelli teve lá os seus percalços.

Fonte: Revista Buena-Dicha, junho de 1938

A Primeira Guerra Mundial dificultaria a importação de ingredientes europeus, como o quinino, obrigando os Vita a serem criativos e a utilizar mais os ingredientes locais. Já na chamada Revolução de 1930, a fábrica da Soledade, no Recife, chegou a ser utilizada pelas forças getulistas. Na sua torre foi colocada uma metralhadora de alto calibre e a fábrica distribuía refrigerantes e panfletos simpáticos a Vargas aos soldados entrincheirados nas ruas da capital pernambucana. Já na Segunda Guerra, a fábrica recifense chegou a ser atacada por populares enfurecidos, no episódio conhecido como o Quebra-Quebra. Na época, navios mercantes brasileiros haviam sido atacados por submarinos alemães. Logo, embarcações civis começaram a ser torpedeados também, a gota d’água sendo o Baependi, que afundou na costa nordestina, deixando centenas de mortos, contando também mulheres e crianças. Com a Itália fazendo parte das potências do Eixo, muitos enxergaram a fábrica da Fratelli Vita como um inimigo entranhado em solo nacional. Não foram poucos os que se marcharam até ela, portando pedras e pedaços de pau, destruindo o que encontrassem pelo caminho.

A fábrica se recuperaria do “assalto” e manteria sua boa reputação incólume nas décadas seguintes. A Fratelli investia bastante em publicidade, inicialmente em anúncios no jornal e depois no rádio, a partir da década de 1930. Patrocinou ainda concursos, premiações, clubes carnavalescos, programas de auditório e, a partir da década de 1960, propagandas na TV. A competição pelo mercado nordestino era feroz, com marcas como a Antárctica, a Saci, a Bidú, a Cliper e outras mais brigando por uma fatia. A gigante Coca-Cola havia chegado ao país na década de 1940, e chegou a criar entreveros legais com a Fratelli: acusavam a marca brasileira de copiar o famoso formato de suas garrafas de refrigerante. Por muito tempo se acreditou que a concorrência desleal com o poderoso rótulo americano teria sido a ruína da Fratelli, mas a verdade é menos romântica.

 

Fonte: Diário de Pernambuco, 24 de abril de 1951

A fábrica sofreria por passar décadas como uma empresa familiar, por vezes incapaz de se modernizar. De capital fechado, os sócios dela tiravam seu sustento, restando poucos fundos para investir em necessárias melhorias. Foi vendida à Brahma do Rio de Janeiro na década de 1970, que ainda passou dez anos produzindo o famoso guaraná Fratelli. Com a criação da Ambev em 1999, a Brahma acabou fundida à Antárctica e o refrigerante foi descontinuado de vez. O belo edifício da Soledade foi ao chão bem antes e em seu lugar está sendo construído mais um arranha-céu, como tantos que surgem descontroladamente no Recife. Mas a antiga sede em Salvador, ao menos, segue de pé. E há notícias circulando nas redes sociais de que a família Fratelli planeja um retorno do refrigerante, surgido na Bahia, mas que talvez tenha sido mais amado pelos pernambucanos.

Mas houve e há outras histórias de sucesso de refrigerantes nordestinos. Um caso emblemático é o do folclórico Guaraná Jesus, criado pelo farmacêutico Jesus Norberto Gomes, aliás ateu. Sua intenção era criar um novo remédio, mas seus filhos acabaram gostando do xarope. Assim, com sua indefectível cor rosa, gosto adocicado e nome original, surgia o Guaraná Jesus, em 1927, em São Luís do Maranhão. O estado não é apenas o único produtor do refrigerante, mas também seu maior consumidor, desbancando todos os outros rótulos, nacionais ou internacionais. Algum tempo depois da morte do seu criador, na década de 1960, foi adquirida pela Coca-Cola, que passou a produzir o refrigerante desde 2001, mantendo o sabor e aparência, mas modernizando o rótulo e lançando até uma versão light do produto. A bebida, contudo, segue pouco conhecida e consumida fora do Maranhão.

O Nordeste, portanto, possui uma longa e exitosa história na indústria de refrigerantes. Uma que mistura empreendedorismo, engenhosidade e sabores típicos da região. Alguns existentes até os dias atuais, outros presentes apenas nas memórias gustativas e afetivas daqueles que um dia os experimentaram. Mas os refrigerantes nordestinos possuem tradição e potencial para não apenas retornar ao mercado, que é o caso da Fratelli Vita, mas também para ultrapassar as fronteiras regionais, como ainda não ocorreu com o Jesus. Conhecer sua história é entender uma parte importante do desenvolvimento da indústria alimentar brasileira, talvez assim abrindo o caminho para investimentos futuros no setor.

 

 

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Links para museus da alimentação em todo mundo

Separamos alguns links com museus da gastronomia e alimentação em todo mundo para oferecer um painel único das muitas iniciativas que pautam o tema do comer e beber em nossa vida.

 

INICIATIVAS NO BRASIL

– Observatório da Gastronomia – http://observatoriodagastronomia.com.br/

– Revista Brasileira de Gastronomia – http://rbg.sc.senac.br/

– Florianópolis Cidade Criativa Unesco da Gastronomia – http://www.floripacreativecity.com/

– Belém Cidade Criativa Unesco da Gastronomia – http://www.belem.pa.gov.br/gastronomiacriativa/

– OCCA – https://www.facebook.com/occa.ceara/      

– Alere – Grupo de Pesquisa da História do Abastecimento e da Alimentação na Amazônia  – https://www.facebook.com/grupoalerehistoria/

– OBHA – http://obha.fiocruz.br/

– Articulação Nacional de Agroecologia – http://www.agroecologia.org.br/

– Slow Food Br – http://www.slowfoodbrasil.com/

– Museu da Gastronomia Baiana do Senac BA – http://www.ba.senac.br/museu/

– Seminário sobre o milho do MGB do Senac BA – http://www.ba.senac.br/museu/seminario.asp

 

Os links abaixo costumamos acessar atrás de informações para nossa região

– Epagri – https://www.epagri.sc.gov.br/

– Cepagro – Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo – https://cepagroagroecologia.wordpress.com/

– Rede Catarinense de Engenhos de Farinha – https://engenhosdefarinha.wordpress.com/

 

 

INICIATIVAS NO MUNDO

– Informações sobre as cidades que compõem a Rede Unesco de Cidades Criativas da Gastronomia e demais campos – https://en.unesco.org/creative-cities/creative-cities-map

– ODELA – Observatório de Alimentação – Universidade de Barcelona – http://www.ub.edu/odela/

– Slow Food Inter – https://www.slowfood.com/

 

Alimentarium Vevey, Switzerland
An eclectic collection, with images viewable online
http://www.alimentarium.ch/en

Baked Bean Museum of Excellence Port Talbot, Wales
In the home of “Captain Beany”
http://www.captainbeany.com/baked_bean_museum_of_excellence.html

Bakkerijmuseum Hattem, The Netherlands
Bakery museum housed in sixteenth-century baker’s house
http://www.bakkerijmuseum.nl/

Barbaryannis ouzo museum Plomari, Lesvos, Greece
Now this really appeals!
http://www.barbayanni-ouzo.com/ouzo-museum-lesvos.html

Brogdale Collections Faversham, U.K.
National fruit collection with over 4000 varieties
http://www.brogdalecollections.co.uk/

Bruges Beer Museum Bruges, Belgium
Does just what it says on the tin
http://www.brugesbeermuseum.com/index

Burnt Food Museum On-line
“Celebrating nearly two decades of Culinary Disaster”
http://www.burntfoodmuseum.com/

Canada Agriculture and Food Museum Ottawa, Canada
http://cafmuseum.techno-science.ca/en/

Cork Butter Museum Cork, Ireland
The story of Ireland’s most important food export and the world’s largest butter market
http://www.corkbutter.museum/

Colman’s Mustard Shop and Museum Norwich, UK
The real deal
http://www.mustardshopnorwich.co.uk/our-shop-and-museum-pgid8.html

Corn Palace Mitchell, South Dakota, USA
A folk-art wonder
http://cornpalace.com/

Culinary Arts Museum at Johnson & Wales University Providence, RI, USA
Expanding digital collection
https://www.culinary.org/

Currywurst Museum Berlin, Germany
Near Checkpoint Charlie; devoted to the curry/ketchup covered steamed and fried pork sausage snack
http://currywurstmuseum.com/en/

Das Schokoladenmuseum im Herzen Hamburgs Hamburg, Germany
Chocolate museum sponsored by Hachez, smaller than the one in Cologne
www.chocoversum.de

Deutsches Kochbuchmuseum Dortmund, Germany
Museum of cookbooks, due to (re)open at the end of 2015
http://www.dortmund.de/de/freizeit_und_kultur/museen/deutsches_kochbuchmuseum/startseite_dkbm/index.html

Deutsches Museum fuer Kockkunst und Kochbuecher Frankfurt, Germany
Great historic cookery museum
Www.tafelkultur.com

Économusée De La Brasserie St Paulin, Quebec
A microbrewery where the atmosphere and décor evoke the old-time taverns of New France
http://www.bonjourquebec.com/qc-en/attractions-directory/museum-interpretation-centre-historic-site/les-bieres-de-la-nouvelle-france-economusee-de-la-brasserie_23998514.html

Eesti Piimandusmuuseum Järvamaa, Estonia
Estonian dairy museum
http://www.piimandusmuuseum.ee/?Languages:in_English

Endangered Cake Museum New Orleans, USA
A wonderful concept! Now housed by the Southern Food and Beverage Museum
http://www.ediblegeography.com/endangered-cake-museum-update/
http://southernfood.org/

Escoffier Museum of Culinary Arts Villeneuve-Loubet, France
http://fondation-escoffier.org/

Frietkotmuseum Antwerp, The Netherlands
Detailed reconstruction of a chip stand from 1860, serving real chips in paper cones
http://www.frietkotmuseum.be/

Frietmuseum Bruges, Belgium
Dedicated to potato fries, and housed in one of Bruge’s loveliest buildings
http://www.frietmuseum.be/en/museum.htm

Gaziantep Culinary Museum Gaziantep, Turkey
Set in an old house down a cobbled side street; the cuisine of Southeast Turkey
http://turkishtravelblog.com/gaziantep-culinary-museum/

German Museum of Food Additives Essen, Germany
Does what it says on the tin. Sadly, according to Giano Balestriere, it is rarely open and hard to find
https://www.zusatzstoffmuseum.de/

Grain Academy Museum Calgary, Canada
History of the grain industry in Canada
http://www.grainacademymuseum.com/

HJ Heinz History Center Pittsburgh, USA
History of Heinz company and its products
http://www.heinzhistorycenter.org

Ingersoll Cheese and Dairy Museum Ingersoll, Ontario, Canada
Replica C19 cheese factory
http://www.wedohistory.ca/cheese

International Vinegar Museum Roslyn, South Dakota, USA
All you wanted to know about vinegar
http://internationalvinegarmuseum.com/

Klippfish Museum Kristiansund, Norway
A museum of air-dried salted cod
http://www.nordmore.museum.no/artikkel.aspx?MId1=1782&AId=498&back=1

La Cité du Vin Bordeaux, France
A child-friendly wine museum! Even the shape of the building evokes a glass of wine
http://www.laciteduvin.com/en

La Maison du Gruyère Pringy-Gruyère, Switzerland
Interactive exhibition of “the king of cheese” and restaurant
http://www.lamaisondugruyere.ch/accueil/

Le Musée du Bonbon Haribo sur Uzès dans le Gard Uzes, France
A whole museum for this popular sweet
http://www.museeharibo.fr/fr/

Lofoten Stockfish Museum Lofoten, Norway
Norway’s oldest export commodity (apart from the Vikings)
http://www.lofoten-info.no/stockfish.htm

Maple Syrup Museum of Ontario St. Jacob’s, Ontario, Canada
Small but perfectly formed
http://www.attractionscanada.com/Ontario/Waterloo/Maple-Syrup-Museum-of-Ontario-St-Jacobs-ON/default.asp

Musée de Champignon Saumur, France
Mushrooms in caves, mushrooms in cases, mushrooms on plates …
http://www.musee-du-champignon.com/

Musée du Foie Gras Frespech, France
One of many French Foie Gras museums, recommended by Kate Hill – history nd tastings!
http://www.souleilles-foiegras.com/boutique/fr/

Musée du fromage cheddar Saint-Prime, Quebec, Canada
Cheddar cheese museum
http://www.museecheddar.org/

Musée du Pruneaux Granges sur Lot France
A museum devoted to prunes!
http://www.bienvenue-a-la-ferme.com/lot-et-garonne/ferme-ferme-berino-martinet-musee-du-pruneau-149317/contact_plan_acces

Musée et Bibliothéque de la Gourmandise Hermalle-sous-Huy, Belgium
“The curious and entertaining history of cookery and food”. Wonderful!
http://www.musee-gourmandise.be/en/homepage-en

Musei del Cibo Parma, Italy
The food museums of Parma: Parmigiano Reggiano; Prosciutto di Parma; Salami; The tomato
http://www.museidelcibo.com/

Museo del Frutta Turin, Italy
The fruit museum of Turin
http://www.museodellafrutta.it/
Museo del Jamon Madrid

Really a delicatessen devoted to ham, with close to a thousand cured hams hanging from the ceiling like chandeliers
http://www.museodeljamon.es/

Museo Della Pasta Rome
Temporarily closed for reservation; supposed to re-open in 2017. Has excellent publications devoted to history of pasta
http://museodellapasta.it/wp/

Museon Arlaten Arles, France
Elisabeth Luard comments: similar ethnological rationale to the Pitt Rivers in Oxford but all about Provence. Worth it for the dried mole’s paws (so useful for weaving spells) alone, but most of all for the life-size panoramas of domestic scenes from trad Provençale life inc a gorgeous Souper Maigre
http://www.museonarlaten.fr/

Museu da Gastronomia Baina Salvador, Brazil
A museum of Afro-Brazilian culinary history
http://www.ba.senac.br/

Museum de Locht North Limburg, The Netherlands
A museum of life on the farm, focusing on asparagus, mushrooms, bread and beer – what could be better!
http://www.delocht.nl/

Museum of Bread Culture Ulm, Germany
http://www.museum-brotkultur.de/index.php?option=com_content&view=article&id=77&Itemid=59

Museum of Food and Drink Williamsburg, Brooklyn, NY
“The world’s first large-scale food museum…”
http://www.mofad.org/

Museum of Iberian Ham Aracena, Spain
Shares premises with a mushroom museum
http://www.museodeljamondemonesterio.com/

Museum PSYRI Athens, Greece
A museum of Greek gastronomy
http://www.gtp.gr/GastronomyMuseum

Museum of the American Cocktail New Orleans, USA
Mouthwatering
http://www.cocktailmuseum.org/

Museum of the Olive and Greek Olive Oil in Sparta Sparta, Greece
Looks beautiful! There are also olive museums in Naxos, Crete and Kefalonia
http://www.oliveoilmuseums.gr/ecportal.asp?id=55&nt=18&lang=2

Mustard Museum Doesburg, The Netherlands
http://www.doesburgschemosterd.nl/

National Museum of Pasta Foods Rome, Italy
Temporarily closed; reopening in 2015 (hopefully)
http://museodellapasta.it/wp/296-2/

National Mustard Museum Middleton, Wisconsin, USA
Runs the “world-wide mustard competition”
www.mustardmuseum.com

Norwegian Canning Museum Stavanger, Norway
http://www.museumstavanger.no/home/

Pitt Rivers Museum Oxford, UK
Not strictly a food museum, but many food-related exhibits in which the Symposium is taking an interest under the guidance of Linda Roodenburg
https://www.prm.ox.ac.uk/

Ponterfract Museum Ponterfract, UK
A combination of liquorice and art nouveau!
http://wakefieldmuseumsandlibraries.blogspot.com.au/p/pontefract-museum.html

Potato museums
Wikipedia has a huge list, although it seems not to be up to full wiki standards
http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_potato_museums

Pulmuone Kimchi Museum Seoul, South Korea
Currently closed; may be reopening in new venue, March 2015
http://www.kimchimuseum.co.kr/foreigner/english/intro.asp

Sanliurfa Kitchen Museum Sanliurfa, Turkey
Preserving local food traditions in city nominated for UNESCO’s city of gastronomy
http://www.dailysabah.com/food/2014/12/18/sanliurfa-gets-museum-dedicated-to-food

Schokoladenmuseum Cologne, Belgium
The diverse history of cocoa and chocolate, sponsored by Lindt
http://www.schokoladenmuseum.de/start.html

Shin-Yokohama Raumen Museum Shinyokohama, Japan
“The world’s first food-themed amusement park”
http://www.raumen.co.jp/english/

Southern Food and Beverage Museum (SOFAB) New Orleans, USA
Food of the deep South
www.southernfood.org

Stichting Behoud en Bevording Fruitcultuur Doesburg, The Netherlands
A museum of old fruit varieties
http://www.tolderas.nl/

Strange and Unusual On-line
A listing of strange and unusual food museums, including a fish ball museum and a museum of celebrity leftovers, together with many that already appear in this list
http://www.atlasobscura.com/categories/food-museums

Tiptree (jam) Museum Tiptree, Essex, UK
With a rather nice tea shop
http://www.trooms.com/goto.php?sess=+A5C51465C5959+F1D42131744505D1D1D58+E+C57+9+95B57405F475A1B125D14+543&id=34

Torino wax fruit museum Torino, Italy
Over a thousand “artificial plastic fruits”, all modeled by the same man
http://www.comune.torino.it/musei/en/elenco/museofrutta.shtml

Truffle Museum Cahors, France
Run by Pebeyre family on their farm
http://www.thefrenchfarm.com/brands-of-products/pebeyre

Twinings Tea Museum London, UK
A small museum in a large tea shop that is a museum in itself
http://www.twinings.co.uk/about-twinings/216-strand

Virtual Food Museum On-line
Linda Roodenburg’s great creation – an Internet food museum!
www.foodmuseum.nl

World Carrot Museum On-line
More about carrots than you ever wanted to know
http://www.carrotmuseum.co.uk/

 

 

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Pastel de Festa

Uma receita dita tradicionalmente pernambucana é o pastel de festa, aquele feito de massa folheada. Porém estes pastéis são verdadeiros continuadores de uma outra receita que é a pastilla e/ou bastilla, e ainda bisteyaa, o que afirma como é próxima e fundadora a cozinha Magrebe das nossas cozinhas, herdeiras da civilização do açúcar.

Foto de Jorge Sabino

Recheados de carne bovina moída, bem temperada com cominho, após assados, são polvilhados de açúcar. Simplesmente deliciosos! No caso da pastilla ou bisteyaa, como são conhecidos pelos povos do Norte da África, ele é tradicionalmente feito de massa filo, e recheado com carne de pombo, e depois de assado, é pulverizado com açúcar.

Em Pernambuco, as etnografias mostram que os recheios dos pastéis de festa são feitos de carne de boi, de porco ou de galinha. Há uma tendência de escolher a carne de porco, possivelmente por causa da especial carne de porco preto nas receitas portuguesas. Segundo, D. Magdalena Freyre, mulher de Gilberto Freyre, na sua receita de pastéis de festa, servidos nas celebrações familiares de Natal, há o uso da carne de porco para o recheio.

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Fartes ou Fartens – o doce que é uma fartura!

“Tanto comas que te fartes,
E sem ser cousa de espantos,
De fartes, farta a barriga,
Festeja a festa dos santos.”
(R.C.M., 1877, p. 300)

 

Fartes, Farténs ou Fartéis, todos plurais de Fartem, foi o primeiro doce que desembarcou no Brasil, com a esquadra portuguesa de Pedro Álvares Cabral. Esse momento, do dia 24 de abril de 1500, ficou registrado na carta que Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei D. Manuel: “Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartens (bolos), mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quási [sic.] nada; e se provaram alguma cousa, logo a lançavam fora.” (Dias, Vol.2, 1920-1924, p.89).

Os fartes são considerados de origem portuguesa, e aparecem nos registros sempre como doces a base de amêndoas e açúcar,  e especiarias podendo conter ovos, envoltos por uma massa de manteiga e açúcar, em que às vezes, cita-se a farinha de trigo. Entretanto, podem aparecer também enrolados em uma fina e alva folha de hóstia.

O Vocabulário Portuguez e Latino, de Raphael de Bluteau, 1728 (Tomo 4. p. 38) define Fártem como: “Tira de massa, que dobrada, envolve amêndoas pisadas, canella, cravo, & açúcar, conglutinados com miolo de pão ralado.”

Na descrição de Cascudo (1983: 343): Fartes “ […] outra ‘permanente’ nas delícias que ao paladar oferece a perserverança portuguesa no terreno da doçaria.” Cascudo (1983: 351) faz uma correspondência entre os Fartes trazidos Cabral e o fato dele ser originário da Beira, terra dos fartes. Entretanto, questiona se a iguaira servida era de fato portuguesa, devido à duração da viagem, e supõe que deve ter sido produzido a bordo, sem as especiarias, como Emanuel Ribeiro confirmou existir, com mais amêndoas e cidrão, e a massa. Cascudo também afirma ainda que no Brasil, os Fartes não mantiveram esse nome, “Dispersaram-se na multidão inominada e gostosa dos bolos de nata, pastéis de recheio de creme, com o invólucro liso ou folhado.”

O livro A Arte de Comer em Portugal na Idade Média, de Salvador Dias Arnaut refere-se a Fartalejos, termo presentes no Cancioneiro em uma composição de autoria de Luis Anriques, de características judaicas. De acordo com o livro, Esteves Pereira suspeita que Fartalejos sejam os Fartes que descreve como empadas doces encapadas.

A pesquisadora Carmem Soares, em Ensaios sobre o Patrimonio Alimentar Luso-Brasileiro, 2014, pp.25-26, relata ter encontrado a receita de Fartes no primeiro manuscrito de cozinha portuguesa do séc. XVI, atribuído à Luis Álvares de Távora no Arquivo Destrital de Braga, documento que não tivemos acesso,  além dos demais títulos que serão abordados aqui.

A primeira receita de Fartes aparece a partir do Livro de Cozinha da Infanta D. Maria publicado entre o final do séc. XV início do XVI. A mesma receita foi publicada novamente em A Arte Nova e Curiosa para conserveiros, confeiteiros e copeiros, e mais pessoas que se occupaõ em fazer doçes, e conservas com frutas de varias qualidades, e outras muitas receitas particulares, que pertencem á mesma arte, livro de 1788, de autoria de José de Aquino Bulhoens (Fig. 1 e 2).

 

Figura 1

 

 

Figura 2

 

Nessa receita, o creme de açúcar, mel, amêndoas, gengibre, cravo, canela e água de flor de laranjeiras é espessado com farelo de bolo. A massa é produzida com manteiga, açúcar, farinha de trigo e ovo. A composição da receita ilustra muito bem os padrões alimentares da Idade Média, em que não havia um compromisso com uma combinação entre as especiarias e estas com os ingredientes, mas, uma sobreposição, uma vez que o que importava era exibir o valor econômico através dos pratos – nesse caso muito caro, com tantas especiarias importadas. O sabor ficava prejudicado em detrimento da aparência que, naquele momento, tinha muito mais valor. O bolo era uma produção demorada e trabalhosa que fazia parte do cardápio mais elaborado da nobreza. Lembrando que foi a partir da Idade Média que a cozinha se afirmou como elemento de distinção entre as classes sociais.

No livro O Cozinheiro Imperial ou Nova Arte do Cozinheiro e do Copeiro em todos os seus ramos, de R.C. M., 1877, p. 300, (Fig. 3) a receita de Fartes é identificada como Fartes de Espécies, e o creme contém além de açúcar e amêndoas, cidrão, cravo, canela e erva doce, e é espessada com pão ralado. Depois, os fartes vão ao forno envoltos em uma massa de manteiga, açúcar e certamente, alguma farinha para estruturar. Observa-se aqui uma adaptação da primeira receita, mais simples e menos dispendiosa.

 

Figura 3

 

Uma característica comum entre essas receitas é o tipo de medida utilizada para a orientação das quantidades: arrátel, quartilho ou quarta e escudela que cairam em desuso. O “arrátel” (da palavra árabe: al-ratl) era um padrão moldado em granito ou ferro fundindo, portanto, passível de variação, que o Sistema Português de Medidas incorporou desde a formação de Portugal. Definido pelo rei D. Manuel I, em 1495, como 459g, o arrátel se manteve em vigor até o século XIX, com a introdução do Sistema Médrico Decimal, quando passou a ser substituído pela libra. Já a “quarta” representava a quarta parte de um arrátel, enquanto a ”escudela” correspondia à medida de um recipiente de madeira redondo e raso.

Observa-se que os processos que envolvem a produção da receita também exigem um saber próprio. Na receita da Figura 1 e 2, pinga-se uma gota da calda no prato para verificar o ponto que se dá quando a gota não escorrer. Na mesma receita, para verificar o ponto do cozimento, polvilha-se a canela e aperta-se a massa com o dedo, e a massa não deve grudar mais. A verificação do ponto de cozimento da segunda receita é semelhante ao da primeira, utilizando pão ralado, ao invés de canela.

Outra receita antiga de Fartes de Especia (Fig. 4) remonta o séc. XVIII, e aparece no Livro de Receitas de Cozinha, Cosméticos e Mezinhas das Freiras da Visitação de Santa Maria, Lisboa, A.N.T.T., Manuscritos da Livaria, no 2403-426).

 

Figura 4

 

Inicia-se por um pré-praparo que corresponde à produção de um bolo de manteiga, sem adição de fermento para ser ralado, peneirado e misturado ao creme dos fartes. Como nas receitas anteriores, a calda inicial não sugere a quantidade de água que será levada ao fogo com o açúcar. A canela é medida pelo valor de um tostão e o cravo, o de um vintém. Despois do recheio frio, se faz a massa – que também não cita a farinha de trigo – que deve ser estendida muito fina e cortada em tiras estreitas. Pela primeira vez, aparece na receita a recomendação para a cocção no forno. Os pequenos fartes devem ser colocados em uma bacia polvilhada com farinha para serem levados ao forno.

No Livro de Receitas de Cozinha, Cosméticos e Mezinhas das Freiras da Visitação de Santa Maria, Lisboa, A.N.T.T., Manuscritos da Livaria, no 2403-426 aparecem mais três receitas de fartes: uma de Fartes com Ovos, outra de Fartinhos, e mais uma outra de Farteis apenas (Fig. 5). Uma característica interessante dessa receita é que já aparece uma especificação da calda em ponto de espelho. A receita apresenta cidra, cidrão, cravo, canela e cheiro, e o creme recebe pão ralado no final da cocção, mas não cita a massa para envolver o creme.

 

Figura 5

 

No Livro O Doce Nunca Amargou… Doçaria Portuguesa. História. Decoração. Receituário., de Emanuel Ribeiro, publicado pela prineira vez em 1923, e cujas receitas foram recolhidas de um manuscrito de 1834, intitulado: Livro da Razão sobre algumas particularidades pertencentes à Casa Real, e Covas, e Vida do Padre Pregador Fr. José Joaquim de Santa Rosa, monge de S. Bento, e secularizado por Decreto, do Sr. D. Pedro IV no ano de 1834. Nele, a receita de Fartes de Espécie apresenta mais precisão:

“Fartes de espécies

Tomarão 8 arráteis de açúcar em ponto de fio abaixo, e lhe deitarão 4 arráteis de amêndoas muito bem pisadas, e 1 arrátel de cidrão em bocadinhos delgados e pequenos; cravo, canela, erva-doce pouca, e ferve-se-á um pouco, e se tirará em seguida, o tacho do lume, e se deitará uma quarta de pão ralado por medida, e o sinal de estar feita essa espécie, é botar em cima da espécie uns pós de pão ralado, e pôr-lhe em cima o dedo a ver se fica enxuto, e se deita em prato para esfriar; tome-se então a massa feita com manteiga e açúcar e se vão fazendo os fartes, e feitos se mandam ao forno.” (pp. 119-120).

 

Alfredo Saramago e Manuel Fialho conseguiram recolher a receita de Farte copiada a seguir, no livro Cozinha Alentejana, de 1998, pp. 231-232. Na nota de rodapé os autores declaram que os Fartes são muito comuns em Évora e naquela região. De acordo com Garcia de Rezende, na Crônica de D. João II, citado pelos autores, para a festa de casamento de seu filho, D. João II ordenou que a população preparasse vários cestos de Fartens para o banquete.

Na realidade, Saramago e Fialho,  reproduziram naquele livro a mesma receita publicada em Doçaria dos Conventos de Portugal, de 1997, p. 147, apontada como pertencente ao receiturário do Convento de Santa Helena do Calvário de Évora.

 

“Fartens ou Fartes

Leve 500 gramas de açúcar a ponto de cabelo e deite depois 250g de amêndoas raladas e duas cascas de laranja. Ponha um cravinho, uma colher de café de canela e outra de erva-doce. Deixe ferver durante três minutos. Retire o talho do lume e deite 150g de pão ralado. Mexa muito bem. Faça uma massa com 300g de farinha, uma tigela de água 100g de manteiga e 2 gemas de ovo. Mexa muito bem até que fique pronta para tender. Tenda a massa e recorte com a carretilha à volta de um pires de chá. Ponha uma colher de sopa de de espécie no meio e dobre para fazer a forma de pastel. Frite em azeite e polvilhe açúcar e canela.”

Nessa receita, os fartes se apresentam como pasteis fritos no azeite e rolados em açúcar com canela. Mantem as mesmas características das receitas anteriores, diferindo, entretanto, na forma de redação, pois dá mais detalhes sobre o modo de preparo e precisão quanto às quantidades dos ingredientes utilizados.

 

Apesar da receita original ser considerada portuguesa, pode-se observar uma forte influência da cultura árabe, tanto na presença da receita da espécie (massa semelhante ao maçapão árabe) que recheia o doce quanto na profusão de especiarias, e até mesmo na massa que pode ter sido, inicialmente, uma massa folhada pela presença marcante da manteiga, coberta com açúcar. A tendência ao secretismo de receitas que vigorava nos conventos e palácios até o século XIX,  estimulando a mutilação de receitas e a ocultação de métodos e técnicas contribuíram para que muitas delas se perdessem ou, simplesmente, desaparecessem.

No Brasil, os Fartes podem ser encontrados ainda sob essa denominação, em Sobral, no Ceará. Entretanto, a receita praticada lá apresenta pouca semelhança com aquela trazida pelos portugueses.

 

 


 

VEJA RECEITA
de Fartes de espécie por Lucia Soares, clique aqui!

 

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Receita de Fartes de espécie por Lucia Soares

Recheio de espécie

 

Ingredientes

400g de açúcar

200ml de água

200g de farinha de amêndoas

200g de cidra ralada

100g de farinha de rosca

Casca ralada de ½ laranja Bahia

Cravo da ìndia o quanto baste

Canela em pó o quanto baste

Erva-doce o quanto baste

Uma pitada de sal

 

Modo de Preparo

  1. Colocar a água e o açúcar em uma penela e levar ao forno fervendo até alcançar 107º C;
  2. Juntar a farinha de amêndoas, a cidra ralada e as especiarias mexendo até soltar do fundo da panela;
  3. Retirar e esfriar.

 

Massa

 

Ingredientes

450g de farinha de trigo

150g de manteiga sem sal

3 gemas

Cerca de 100ml de água gelada

1 pitada de sal

 

Modo de Preparo

  1. Peneirar a farinha de trigo com o sal;
  2. Misturar bem a manteiga picada para obter uma farofa;
  3. Juntar um pouco da água gelada;
  4. Juntar a gema e trabalhar a massa com as pontas dos dedos;
  5. Abrir a massa com o rolo e cortar com um cortador redondo;
  6. Colocar o recheio no centro e fechar a massa umedecendo as bordas com um pouquinho de água;
  7. Pincelar 100ml de leite com 50g de açúcar e levar ao forno à 180º C por cerca de 25 minutos.

 

 

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