O biscoito Bricelet

É tradição, na nossa cultura ocidental cristã, valorizar os conventos e os mosteiros como lugares patrimoniais, que são também consagrados pela sua doçaria e pelas suas bebidas artesanais.

E, a partir da civilização do açúcar, ampliaram-se no mundo as muitas receitas que integram o entendimento do ofício de fazer doce. Este ofício passa a compor também um lugar social na gastronomia das confeitarias e das padarias. Desta maneira, muitas receitas medievais e, em especial, da Europa, passam a atestar identidades culturais dos doces que, na sua maioria, eram conhecidos como doces conventuais.

Ainda, integrados nestes contextos da tradição religiosa das cozinhas conventuais, com freiras artesãs de doces, havia o comércio desses doces, que pela sua importância é notável até hoje, ora pelo reconhecimento das elaboradas receitas, ora pela assinatura de regiões, de conventos e de mosteiros. Assim, há uma valorização no mercado de consumo dessa doçaria, que dá continuidade às memórias da Idade Média.

Por tudo isso, trago um estudo de caso no Brasil, em Pernambuco, no Convento de Nossa Senhora do Monte, em Olinda, da ordem Beneditina, onde se fabrica os biscoitos “bricelet”. Sem dúvida, as ordens religiosas trazem suas identidades culturais conforme as suas procedências. Neste caso, esta ordem religiosa vem da Suíça, e com ela a tradição de fazer o biscoito bricelet, desde o século XVII.

A receita é feita à base farinha de trigo, água, ovo, açúcar, e um toque de limão ou laranja. Esta massa de biscoito do tipo gaufrette é despeja numa forma de ferro chamada de fer à bricelet, onde é assada e recebe as impressões que estão gravadas nesta forma. Este estilo de biscoito com impressão é muito delicado e lembra a hóstia. Há diferentes impressões que são normalmente relativas aos temas como: armoriais, religiosos, brasonados e barrocos.

Esta receita base se difundiu pela Europa, e daí foram sendo recriadas interpretações, como a receita de um pâtissier vienense, um sanduiche de biscoito com a massa do gaufrette e o recheio de avelãs e chocolate, e chamado de wafer. Também, há outros formatos que podem ser dados para esta massa quando ela ainda está quente, como enrolada, ou como um cone, o nosso tão conhecido casquinho de sorvete, que é um tipo de gaufrette.

Raul Lody