Tag: doçaria barroca

Para comer a doçaria barroca - foto Jorge Sabino

Para comer a doçaria barroca

O Barroco é um estilo artístico que começa na Europa, na Itália, a partir do final do século XVI, estendendo-se por outros países, povos e culturas, inclusive nas colônias de Portugal, chegando ao Brasil.

O Barroco teve seu esplendor nos séculos XVII e XVIII, valorizando o luxo por meio de uso de dourados, no emprego de muitos elementos decorativos, voltando-se a mais ampla e alegórica celebração da fé. É o ouro que invade as igrejas, que chega, que chega aos palácios, as indumentárias atuando nos hábitos e nos costumes, valorizando o trabalho dos escultores, dos joalheiros, dos costureiros, dos músicos entre outros ofícios para louvar Deus

O estilo Barroco no Brasil é chamado de tardio por ter se fixado, especialmente nas igrejas, nos séculos XVIII e início do XIX chamado também de arte colonial. Assim, marcou imaginários perante a fé e tocou outras manifestações como técnicas artesanais que possibilitavam revelar os desenhos, os volumes e os materiais que pudessem traduzir este estilo nas casas, nas mobílias, nas roupas, nos objetos de barro, madeira, metais, tecidos entre outros.

Certamente o Barroco fixou-se nas classes detentoras do poder econômico: clero e nobreza, chegando aos demais segmentos sociais, principalmente pelo trabalho, pelas técnicas artesanais, influenciando comportamentos e escolhas de materiais e produtos.

Afirma-se que o Barroco está e compõe a nossa arte popular, especialmente no artesanato de rendas e bordados, nos entalhes sobre madeira de muitos escultores, na pintura entre outras formas de expressar luxo, riqueza por meio de elementos visuais que trazem motivos recorrentes às igrejas coloniais, as roupas e aos objetos que bem definem um estilo que também revelava novos conceitos de morar e de se relacionar com o corpo.

Nesses ambientes de arte e de poder econômico quero trazer a doçaria do Brasil, sendo esse pais o maior produtor de açúcar, em especial no século XVII, e assim manifestando receitas adaptadas, substituindo o trigo pela mandioca, adaptando, recriando, criando doces.

O doce é uma comida que assume conceitos estéticos especiais, porque o doce tem que mostrar beleza, harmonia, para assim ser verdadeiramente um doce.

Das receitas medievais dos conventos ibéricos, fundadas nas gemas, nas claras nas amêndoas, no cravo, na noz- moscada, na canela e no açúcar misturavam-se na corte, nas confeitarias, para os dias de festa, de celebração.

No caso do Brasil barroco vê-se uma grande produção e criação de bolos, especialmente no Nordeste, pois os bolos identificam os engenhos de açúcar, enquanto verdadeiros brasões construídos nas receitas particulares e autorais, que são essencialmente simbólicas de uma história e de uma família.

A marmelada, o caju e a goiabada transformaram-se desde os tempos coloniais nos grandes doces das casas- grande (…)
Gilberto Freyre

Totalmente integrada a produção de açúcar no Nordeste é a produção de doces com tendências nacionais que dialogam profundamente com as receitas do outro lado do atlântico, com Portugal em especial.

O luxo da mesa brasileira _da mesa das casas – grandes _ em dias de festa(…) Principalmente o luxo da sobremesa, dos doces e das guloseimas de açúcar.
Gilberto Freyre

E assim, uma história social e econômica que nasce na plantation da cana sacarina, na grande produção de mel de engenho, da rapadura e do açúcar está a grande base etno alimentar da nossa doçaria tão ampla, diversa e plural.

Uma doçaria que conversa com as volutas, com as talhas douradas, com os elementos do imaginário barroco pronto para ser comido em cada doce, em cada pedaço do barroco açucarado que vai à boca.

RAUL LODY

 

GALERIA DOCES BARROCOS

fotos Jorge Sabino

« of 2 »