Categoria: Destaque do mês

foto Jorge Sabino

Quando como pastel de nata, também como Lisboa

É profunda a relação da comida com o seu território, lugar de emoção, lugar de interação gastronómica, e muitos outros lugares que poderão ser vividos e que irão acontecer conforme o diálogo da pessoa com a comida que está no prato.

Sem dúvida, o lugar também acrescenta sabor e acrescenta sentimento para comida, e amplia o ritual da comensalidade.

Pode-se dizer que, há um verdadeiro mapa gastronômico que localiza e relaciona cada comida a uma história, a uma cultura, a uma sociedade. E desta maneira, pode-se viver as muitas identificações que estão afirmadas no próprio ato da alimentação que fortalecem a relação da pessoa com a comida.

Porque quando se come uma comida que está profundamente integrada ao seu território, comer uma comida reconhecida por representar esse território, é verdadeiramente comer o lugar, como é o caso do tão celebrado pastel de nata, pois quando como um pastel de nata também como Lisboa.

Busca-se interpretar os ingredientes, as técnicas culinárias, a estética da comida, a estética do doce, quando e como deve ser consumido, que rituais integram o ato de comer, por exemplo, um pastel de nata, segundo a tradição.

Nestes ambientes tão plurais e múltiplos, quero trazer experiências pessoais, verdadeiras experiências ritualizadas vividas na sua intensidade, na cidade de Lisboa, especialmente no bairro de Belém, onde fica a pastelaria mais famosa, dona da receita original do pastel de nata, “Pastéis de Belém” de 1837.

E assim, viver um café acompanhado de pastel de Belém, que deverá receber um banho generoso de canela em pó para o consumo, e então saborear sua massa folhada com seu recheio cremoso.

Estes significativos rituais sociais da alimentação passam por fortes dinâmicas, quando vão se distanciando dos rituais originais do seu consumo, que convive num crescente e feroz assédio turístico, quando Lisboa cada vez mais invadida por um turismo de massa, que vai faz com que a cidade vá se distanciando cada vez mais da sua verdadeira e poética Lisboa.

RAUL LODY

Bolinho de estudante - foto Jorge Sabino

Bolinho de estudante, o açúcar e a canela no tabuleiro da baiana

Na Bahia, todos conhecem este doce tradicional feito a punho, o tão estimado e saboroso “bolinho de estudante” ou “punheta” um dos mais frequentes integrantes do cardápio do tabuleiro da baiana de acarajé…

No tabuleiro tudo tempera o imaginário, aguça o sabor, traz referências ao paladar, certamente, uma experiência cultural de sistemas alimentares repletos de aspectos, econômicos e sociais.

Destaque, dentro das receitas do tabuleiro da baiana, para uma comida de mandioca, o popular bolinho de estudante. Certamente, ganhando esse nome por ser bolinho frito no final da tarde, hora que os estudantes passam, ao sair dos colégios, pelas esquinas e adros, onde estão arrumados os tabuleiros com tudo que possa seduzir pelo cheiro.

O bolinho de estudante é um doce feito de massa de tapioca, coco, açúcar e canela, estando a maior habilidade para se fazer a receita no trabalho de manipular a massa, de dar com o punho o movimento que faz com que ele seja conhecido como um doce “feito a punho”. Com a massa faz – se bolinhos que são fritos no óleo de milho ou no azeite doce. O bolinho deve ser comido ainda quente, pois a massa é mais saborosa assim, e o açúcar se misturado à canela lhe dá uma casquinha que se derrete a cada mordida.

Ele é sobremesa nas casas para o lanche da tarde. Também, é servido nos restaurantes que buscam traduzir e manter receitas baianas onde se veem bolinhos de estudante em pequenos formatos, servidos em porções.

É a sobremesa para a culminância dos pratos de azeite, diga-se de dendê, pois, não há nada melhor que almoçar um efó acompanhando de boa e fina farinha de mandioca do Recôncavo e, após, os bolinhos de estudante.

 

texto RAUL LODY

foto JORGE SABINO

 

Bolinho de estudante - foto Jorge Sabino
foto Jorge Sabino
Foto Jorge Sabino

Bombom-de-cartola

Fala-se muito de inovação, e nem sempre as inovações são benéficas ou resultam em produtos interessantes; contudo, trago uma inovação exitosa. Refiro-me ao bombom-de-cartola, uma interpretação gastronômica no campo da confeitaria, que é feito a partir de uma receita clássica da doçaria pernambucana popularmente conhecida como cartola.

Assim, vamos inicialmente conhecer a receita original da cartola. A cartola é um preparo muito simples, e nasce da união da banana, geralmente a banana-prata, cortada em fatias, e posta numa frigideira para assar, e depois, sobre a banana, coloca-se um pedaço de queijo de manteiga, tipo de queijo cozido também muito popular nos hábitos alimentares do Nordeste.

Finaliza-se este processo culinário com mistura de açúcar e canela em pó, que é polvilhada sobre este preparo, e assim a cartola estará pronta para o consumo; sendo uma sobremesa muito tradicional e do agrado geral na região.

Destaque é que esses ingredientes são, na maioria, ingredientes do cotidiano, o que facilita a preservação deste hábito de se fazer cartola, como sobremesa, como um lanche da tarde.

Daí vem o “bombom-de-cartola”. Ele é o cumprimento desta receita tradicional, sendo o recheio de cartola assado enrolado pela massa filo como se fosse um papel de bombom.

Uma delícia! E agora acompanhado com sorvete de creme, mais gostoso ainda.

Texto: Raul Lody
Foto: Jorge Sabino

Foto Jorge Sabino

Museu do Açúcar e Doce (MAD) - foto Jorge Sabino

Um Doce tropical para a ceia de Natal

Sem dúvida, as comidas são profundamente simbolizadoras porque cada comida é verdadeiramente um texto visual e estético, além de ser nutricional. Cada comida é capaz de estabelecer muitas conexões especiais, como acontece com as comidas que identificam cada celebração, e para se viver a festa é preciso comer a festa.

O Brasil um país multicultural, e as muitas festas populares e tradicionais, nas quais a maioria é de vocação religiosa, traduzem esta multiculturalidade. Assim, estas celebrações estão conectadas com as suas bases étnicas e históricas, especialmente as celebrações do Ciclo Natalino.

Originalmente, a maioria dos modelos de festejar o Natal, em âmbito doméstico e familiar, e mesmo comunitário, busca reproduzir os cardápios com as tendências gastronômicas do hemisfério Norte; especialmente da península ibérica, por causa da nossa forte ligação com as bases da cultura portuguesa.

Contudo, esses lugares na época do Natal estão em pleno inverno, e o que é oferecido nos cardápios natalinos traduzem esse ambiente do inverno. E é por isso que encontramos muitas frutas secas, o tradicional bacalhau em muitas receitas; diferentes tipos de aves; cabrito; porco; tudo sendo servido com molhos feitos à base de gorduras. Também, há as frituras, como as rabanadas, um aproveitamento do pão que é embebido em leite e ovos, e depois estas fatias fritas são pulverizadas com açúcar e canela. E para complementar o cardápio, há vinhos tintos, encorpados, para harmonizar perfeitamente o frio do inverno com os assados e os doces.

Entretanto, no Brasil, cada vez mais nos seus cardápios das festas de Natal, busca-se integrar e contextualizar comidas e bebidas ao nosso ambiente tropical que está em pleno verão.

Assim, devemos optar por peixes frescos, frutas in natura, como abacaxi, manga, e outras frutas do mês de dezembro; pudins, manjares, doces de frutas tropicais, onde destacamos o coco; além de sorvetes e sucos; e certamente podemos destacar enquanto vinhos, os nossos espumantes de terroir, que são mais refrescantes e adequados a esses contextos tropicais.

Como estudo de caso, trago a receita do manjar de coco, prato clássico e tradicional das nossas mesas, e que festivamente se integra, em sabor e significado, numa opção de cardápio que pode seguir uma tendência de viver um Natal tropical.

Museu do Açúcar e Doce (MAD) - foto Jorge Sabino
cuscus-de-tapioca

Cuscuz de tapioca: um doce de tabuleiro

O cuscuz, no nosso imaginário, é relacionado às técnicas culinárias do norte da África, o Magrebe, que compreende da Argélia ao Egito, onde a farinha de sêmola de trigo duro, de trigo sarraceno, entre outras farinhas, é umedecida e temperada, e segue para o cozimento na cuscuzeira tradicional da região Magrebe, recipiente especial para o cozimento no vapor d’água.

No Brasil, o cuscuz chega com a cuscuzeira e a técnica de umedecer, porém com o uso da farinha de milho; e ainda a massa de mandioca.

Nestes processos culinários são acrescidos outros ingredientes como o leite de coco, o coco ralado, o queijo de coalho; a carne seca, a carne de sol; entre outros ingredientes que vão marcar os sabores e os estilos de fazer cuscuz nas diferentes regiões do Brasil.

Assim, os nossos processos artesanais nas cozinhas ganham muitas interpretações culinárias, pois as receitas são vivas e dinâmicas, e se manifestam nas oportunidades de ingredientes e nos seus contextos eco sociais e econômicos.

Trago como um estudo de caso esta receita popularmente conhecida como cuscuz de tapioca. Contudo, no seu processo culinário não se utiliza o cuscuzeiro, sendo apenas similar ao cuscuz tradicional no ato de umedecer a farinha, que nesse caso é a farinha de tapioca granulada.

 

Para se fazer o Cuscuz de Tapioca

Ingredientes
1 xícara de chá de açúcar
750 g de coco ralado
500 g de farinha de tapioca granulada
1 pitada de sal
6 xícaras de chá de leite de coco
1 lata leite condensado para regar o cuscuz (opcional)

Preparo
Aqueça o leite até levantar fervura. Em uma tigela, coloque o açúcar, o coco, a tapioca e leite fervente. Misture bem e deixe descansar por 5 minutos. Na próxima meia hora, vá mexendo a mistura a cada 5 minutos para hidratar bem. Então, coloque em uma vasilha retangular e deixe esfriar. Leve para gelar, corte em pedaços e decore com coco ralado. Regue com leite condensado se desejar.

 

 

RAUL LODY

foto Jorge Sabino

Os doces de Cosme e Damião

Entre as muitas festas tradicionais e populares, e que se incluem nas celebrações religiosas de matriz africana interpretadas e abrasileiradas na afro-diáspora, está o ritual, seja familiar ou coletivo, dedicado aos Ibejis, divindades protetoras das famílias e das comunidades no âmbito das tradições ioruba.

Esses rituais religiosos se ampliam e começam a incorporar características regionais do Brasil, com isso se une o imaginário dos santos gêmeos da igreja católica, São Cosme e São Damião, com os Ibejis. Faz-se assim uma das maiores tradições da nossa religiosidade multicultural e multiétnica.

Para se viver as festas recorre-se sempre as comidas e as bebidas, porque as festas são também identificadas pelas comidas que são oferecidas e, desse modo, cria-se um grande acervo que está integrado ao nosso patrimônio alimentar.

E em setembro, na tradição religiosa dedicada aos Ibejis, que são os gêmeos protetores das famílias, das comunidades, os promotores da fertilidade e do nascimento de filhos, é celebrado com o um cardápio à base de inhame, feijão, azeite de dendê.

E no paralelismo religioso com os santos católicos, Cosme e Damião, são oferecidos doces e o prato chamado de caruru de quiabos; e ainda, há o caruru banquete, enquanto um cardápio que inclui além do caruru de quiabos, têm-se acarajé, abará, acaçá, feijão de azeite; vatapá, xinxim de galinha, rolete de cana, aluá, entre outros pratos.

No caso da afro-diáspora no Brasil, entende-se que aquilo que pertence ao mundo infantil está vinculando aos doces, muitos e diferentes tipos de doce; porque houve essa relação direta de que não há nada melhor para agradar uma criança do que algo doce.

Assim, misturam-se os doces artesanais, aqueles de receitas familiares e de identidades regionais aos doces industrializados, numa ampla e diversa oferta de uma doçaria representa a fé. A distribuição de doces passa a simbolizar o cumprimento de uma promessa, e uma celebração para os santos da igreja e para essas divindades infantis ioruba.

Alguns doces são marcantes nestas festas de devoção, tais como: cocadas, bolos, manjares; doces diversos de frutas, quindins, queijadas; pudins, tortas; bombons; entre tantos.

Nas casas, oferecer doces às crianças é como oferecer doces para São Cosme e São Damião, como se esses santos comecem pelas bocas das crianças. E nos terreiros de candomblé, nas festas dos Ibejis, seguindo a maioria, os cardápios tradicionais são feitos à base de azeite de dendê, destaque para o caruru de quiabos, também há o oferecimento de alguns tipos de doces, como cocadas.

Sabe-se, ainda, que todas essas celebrações religiosas, especialmente as familiares, onde se concentram as principais devoções a São Cosme e São Damião, são abertas e sensíveis há diferentes interpretações pessoais, estilos autorais de celebrar estes santos; e com isso se cria um amplo e rico acervo de repertórios devocionais que são representados pela variedade e pela diversidade da doçaria brasileira.

 

RAUL LODY

Museu do Açúcar e Doce (MAD)

O mingau de milho e a reza de Santo Antônio

Nas muitas tradições religiosas populares, há sempre um complemento na culminância desses rituais como, por exemplo, o oferecimento de comidas e/ou bebidas. E cada cardápio vai simbolizar o tipo de celebração, também destacar ingredientes que podem mostrar as possibilidades do meio ambiente, e marcar o terroir.

E as festas dos santos de junho, Antônio, João e Pedro, mostram o milho enquanto ingrediente de maior significado que apenas o nutricional, quando ele será consumido em diferentes preparos, e marcará simbolicamente um dos principais papéis da comida que é o de lugar de pertencimento.

Pode-se dizer, ainda, que comer e beber nesses ambientes de festa e religiosidade revela e aproxima a pessoa do que é sagrado, do que é votivo, pois as alimentações coletivas reforçam os mais profundos laços com um sentimento que podemos entender por identidade.

Trago como exemplo a grande fé popular por Santo Antônio, santo português que acompanhou todo o processo histórico da colonização, e que mostra uma grande presença em todo o Brasil, seja por meio da música, da dança, dos cortejos, das trezenas, dos tríduos; e especialmente das comidas de milho.

Na Bahia, notadamente no Recôncavo, são comuns as rezas de Santo Antônio nas casas, nas igrejas e nos terreiros de candomblé, pois os muitos e diferentes processos do chamado sincretismo religioso afirma uma profunda relação sagrada entre Santo Antônio e o orixá Ogum.
Nessa devoção, há uma proximidade, uma intimidade entre Santo Antônio e o devoto, numa relação de amizade e de profundo afeto, faz-se assim uma fé ampliada.

Ainda no contexto do Recôncavo baiano, é comum servir, após as Rezas, um mugunzá feito com milho branco, e, em especial, um mingau no melhor estilo baiano, mingau quase líquido para ser bebido, sendo um mingau de milho amarelo. E assim se expressa a devoção, porque comer a comida da festa é um importante momento de viver a religiosidade.

 

RAUL LODY

Museu do Açúcar e Doce (MAD)

CAFÉ COM “ZABAGLIONE”

Em 8 de maio de 2025, no cardápio oferecido pelo Vaticano por ocasião da eleição do supremo pontífice aparecem duas sobremesas, tradicionalmente italianas: o café com zabaione e uma torta gelada – semifreddo – com suspiros e creme fresco. Com isso, pela oportunidade histórica e acesso a este cardápio, o MAD oferece aos seus leitores e parceiros um olhar gastronômico sobre o café com zabaione.

Popularmente o zabaione é o que podemos chamar de “um tipo de gemada italiana”, cujo processo culinário básico assemelha-se as nossas receitas tradicionais do Brasil.

Destaco esta escolha sobremesa, que faz parte da composição de um cardápio repleto com tantos significados, por ser tão ligada aos hábitos alimentares na Itália. Certamente a receita do zabaione recebe algumas interpretações regionais na Itália, e outras interpretações autorais daqueles que realizam as receitas.

O zabaione nasce da mistura de gemas de ovos e de açúcar, onde há uma proporção, e esta mistura é muito bem batida até que se forme um creme homogêneo e mais esbranquiçado. É um verdadeiro creme, que nesse caso, é servido com café, acrescenta-se o zabaione no café pronto.

Alguns realizam esta receita do creme sem levar ao fogo; outros realizam o creme num processo de cozimento lento que é popularmente conhecido por “banho-maria”. Ainda, pode-se acrescentar alguns tipos de bebidas alcoólicas, e segundo a tradição italiana, uma das mais comuns é o vinho Marsala, porém se pode adicionar conhaque, outros vinhos fortificados, como, por exemplo, o Sagrantino Passito.

Alguns desses estilos certamente estavam presentes na realização da receita na referida ementa, no cardápio de celebração da eleição de novo Papa. E assim, fica este conjunto de considerações para mostrar que as cozinhas tradicionais, geralmente de bases etnoculturais e populares, são as verdadeiramente fundantes de tantos, de muitos sistemas alimentares; além de trazerem muitos significados, muitos simbolismos, nesse caso para a cozinha italiana, e, sem dúvida, para diáspora da cozinha italiana pelo mundo.

RAUL LODY

O arroz de leche no restaurante mais antigo do mundo El Botin em Madri

O arroz de leche no restaurante mais antigo do mundo El Botin em Madri

O famoso restaurante madrilenho El Botin, fundado em 1725, é considerado o mais antigo do mundo. Ele inicia suas atividades como uma hospedaria, já que à época era proibido a venda de comidas prontas em estabelecimentos públicos. Contudo, neste local hoje histórico, os clientes da hospedaria levavam suas carnes, e outros preparos, para serem assadas nos fornos a lenha da hospedaria.

Esta tradição dos assados, dos fornos artesanais à lenha, permanece como marca fundamental da tradição gastronómica deste lugar que é dedicado especialmente aos assados de suínos. Entre os muitos pratos destaca-se o “cochinillo asado”.

Fiel ao meu ofício, e com o desejo de verificar in loco, fui jantar no restaurante El Botin para poder viver e me emocionar com tanta história gastronómica reunida por séculos de funcionamento ininterrupto neste lugar.

Certamente pedi este prato emblemático e identitário do restaurante, o tão famoso “cochinillo asado”, que foi precedido de entradas deliciosas, como as “morcillas”, e para o grande final, um postre também próprio e emblemático das tradições da doçaria espanhola, diria ibérica, que é o arroz de leite, o nosso tão querido e popular arroz doce.

Este preparo doce, que íntegra a civilização Magrebe no território consagrado e conhecido como El-Andaluz, sul da Península Ibérica, chega como um elemento da herança civilizadora de uma longa ocupação feito pelos povos do norte do continente africano na península ibérica durante a expansão do islã para o ocidente.

Assim, nas nossas tradições da doçaria brasileira nós encontramos muitas e diferentes interpretações de receitas, e modos de preparar, do tão estimado arroz doce, uma sobremesa que é tão integrada ao nosso imaginário da doçaria tradicional e popular.

Bem, retomando o tão apreciado arroz de leche do restaurante El Botin, Trago alguns dos ingredientes desta receita que é feita à base de leite de vaca, arroz, cascas de limão Siciliano e de laranja, pau de canela, sal, e canela para polvilhar o prato antes de servir.

E para melhor ilustrar este texto, sege a “carta de postres” do restaurante El Botin recolhida durante o jantar, para marcar a memória e mostrar o seu acervo de doces tradicionais da Espanha.

RAUL LODY

Doces tâmaras e o Ramadã

Doces tâmaras e o Ramadã

Um dos cinco pilares do islamismo é o Ramadã, período de um mês que é dedicado ao jejum, às orações, às reflexões e ao fortalecimento dos laços sociais e afetivos. E tudo isso é especialmente realizado nas refeições coletivas, logo ao anoitecer, conhecidas como “Iftar”.
Também este período do Ramadã se destaca pela retomada ou continuidade das receitas das cozinhas regionais de cada povo e cultura, faz-se desse modo uma ação de preservação da sabedoria acumulada nas memórias coletivas.

Embora o jejum seja um elemento significativo na identidade do Ramadã, é a comida, o partilhar a comida, fazer com que todos possam comer com qualidade e quantidade dentro dos princípios da ética religiosa do Islã, é o que marca e identifica a ética e a moral dos seguidores do Alcorão.
Também, marca ainda o Ramadã, o oferecimento de comida por aqueles que podem oferecer, que podem doar comida para aqueles que não teriam uma alimentação condizente neste período de forte afirmação dos muitos papéis sociais que identificam a essencialidade de ser muçulmano.

Assim, após o “Magrib”, oração noturna que precede os rituais coletivos da alimentação conhecidos por “Iftar” em que tradicionalmente esta refeição é iniciada comendo-se tâmaras desidratadas. E a partir deste momento são servidos os diferentes pratos que marcam os sistemas alimentares das populações muçulmanas no mundo.

A tâmara é uma fruta muito relacionada ao imaginário dos hábitos alimentares dos muçulmanos, sendo uma fruta provavelmente originária do norte do continente africano, que se espalhou pelo Oriente médio e pelo mundo.

Refiro-me a espécie Phoenix dactylifera, “tamar” em árabe, fruta que integra diferentes receitas e compõe diferentes cardápios. Por exemplo, na Etiópia é tradicional servir a tâmara acompanhando o café; no mundo Magrebe, esta fruta integra as muitas receitas como o cuscuz de sêmola. E ainda ela está presente na doçaria, na confeitaria e na panificação.

 

Raul Lody