Fartes ou Fartens – o doce que é uma fartura!

EXPO TEMPORÁRIA DA PRIMAVERA

“Tanto comas que te fartes,
E sem ser cousa de espantos,
De fartes, farta a barriga,
Festeja a festa dos santos.”
(R.C.M., 1877, p. 300)

 

Fartes, Farténs ou Fartéis, todos plurais de Fartem, foi o primeiro doce que desembarcou no Brasil, com a esquadra portuguesa de Pedro Álvares Cabral. Esse momento, do dia 24 de abril de 1500, ficou registrado na carta que Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei D. Manuel: “Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartens (bolos), mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quási [sic.] nada; e se provaram alguma cousa, logo a lançavam fora.” (Dias, Vol.2, 1920-1924, p.89)

Os fartes são considerados de origem portuguesa, e aparecem nos registros sempre como doces a base de amêndoas e açúcar,  e especiarias podendo conter ovos, envoltos por uma massa de manteiga e açúcar, em que às vezes, cita-se a farinha de trigo. Entretanto, podem aparecer também enrolados em uma fina e alva folha de hóstia.

 

Foto de Jorge Sabino

 

A primeira receita de Fartes aparece a partir do Livro de Cozinha da Infanta D. Maria publicado entre o final do séc. XV início do XVI. A mesma receita foi publicada novamente em A Arte Nova e Curiosa para conserveiros, confeiteiros e copeiros, e mais pessoas que se occupaõ em fazer doçes, e conservas com frutas de varias qualidades, e outras muitas receitas particulares, que pertencem á mesma arte, livro de 1788, de autoria de José de Aquino Bulhoens.  Depois dessa receita inúmeras versões foram criadas e publicadas.

Apesar da receita original ser considerada portuguesa, pode-se observar uma forte influência da cultura árabe, tanto na presença da receita da espécie (massa semelhante ao maçapão árabe) que recheia o doce quanto na profusão de especiarias, e até mesmo na massa que pode ter sido, inicialmente, uma massa folhada pela presença marcante da manteiga, coberta com açúcar. A tendência ao secretismo de receitas que vigorava nos conventos e palácios até o século XIX,  estimulando a mutilação de receitas e a ocultação de métodos e técnicas contribuíram para que muitas delas se perdessem ou, simplesmente, desaparecessem.

No Brasil, os Fartes podem ser encontrados ainda sob essa denominação, em Sobral, no Ceará. Entretanto, a receita praticada lá apresenta pouca semelhança com aquela trazida pelos portugueses.

 

 

Foto Jorge Sabino

 

 

 


Receita de Fartes de espécie por Lucia Soares

 

Recheio de espécie

Ingredientes

400g de açúcar

200ml de água

200g de farinha de amêndoas

200g de cidra ralada

100g de farinha de rosca

Casca ralada de ½ laranja Bahia

Cravo da ìndia o quanto baste

Canela em pó o quanto baste

Erva-doce o quanto baste

Uma pitada de sal

Modo de Preparo

  1. Colocar a água e o açúcar em uma penela e levar ao forno fervendo até alcançar 107º C;
  2. Juntar a farinha de amêndoas, a cidra ralada e as especiarias mexendo até soltar do fundo da panela;
  3. Retirar e esfriar.

 

Massa

Ingredientes

450g de farinha de trigo

150g de manteiga sem sal

3 gemas

Cerca de 100ml de água gelada

1 pitada de sal

Modo de Preparo

  1. Peneirar a farinha de trigo com o sal;
  2. Misturar bem a manteiga picada para obter uma farofa;
  3. Juntar um pouco da água gelada;
  4. Juntar a gema e trabalhar a massa com as pontas dos dedos;
  5. Abrir a massa com o rolo e cortar com um cortador redondo;
  6. Colocar o recheio no centro e fechar a massa umedecendo as bordas com um pouquinho de água;
  7. Pincelar 100ml de leite com 50g de açúcar e levar ao forno à 180º C por cerca de 25 minutos.

 

 

 

 

 

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