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foto Jorge Sabino

Pão lua-de-mel ou pãozinho-do-céu: as doçuras ao coco

O sabor doce, ou do que é doce, traz muitas referências, tanto estética quanto em simbolização, onde uma certa amorosidade domina o entendimento de paladar.

Porque o doce tem que ser bonito, assim ele tem que iniciar a sua doçura já no primeiro olhar.

O doce tem que marcar o seu lugar no sentimento da alegria de pôr na boca algo saboroso e festivamente doce.

Além disso, há outras características do doce que fazer parte dos seus processos produtivos nas confeitarias, nas padarias; nas cozinhas de boleiras, de doceiras e doceiros; que fazem tantos produtos bons de ver e bons comer.

Sem dúvida, o doce ocupa um lugar especial na gastronomia, e assim trago uma receita popular no sul do Brasil, feita a partir da massa do brioche, e que recebe complementos, como, por exemplo, o coco ralado, dando assim um sentido mais brasileiro, é o pão lua-de-mel ou pãozinho-do-céu, cujos nomes já remetem a situações prazerosas, etéreas, simbolizadas pelo afeto e pela experiência do doce sabor.

 

foto Jorge Sabino
foto Jorge Sabino

 

RECEITA

Ingredientes

Massa
1 xícara de chá de leite morno
2 colheres de sopa de manteiga derretida
2 ovos
2 colheres de sopa de açúcar
10 g (1 pacotinho) de fermento biológico seco
1 colher de café de sal
3 ½ xícaras de chá de farinha de trigo

Recheio de cobertura
100ml de leite de coco
½ xícara de chá de leite
½ lata de leite condensado
50 g de coco ralado
400 g de doce de leite

 

Modo de fazer

Massa
Numa tigela, coloque o leite morno, a manteiga derretida, os ovos; o açúcar, o fermento e o sal. Misture todos os ingredientes muito bem. Agora, acrescente a farinha aos poucos, de meia em meia xícara, até totalizar as 3 xícaras e meia. Se necessário, incorpore o restante da farinha. Quando não conseguir mais mexer com uma espátula, transfira para a bancada e sove a massa por uns 10 minutos. Então, você vai dividir a massa em bolinhas de 30g (do tamanho de uma bolinha de ping-pong), e leve a uma assadeira untada com óleo. Deixe fermentar por aproximadamente uma hora ou até dobrarem de tamanho. Asse em forno pré-aquecido a 180º por aproximadamente 20 minutos. Deixe esfriar.

Recheio de cobertura
Faça furos na lateral dos pãezinhos e, com um saco de confeitar, recheie com doce de leite. Misture o leite de coco, o leite e o leite condensado. Mergulhe os pãezinhos recheados nessa mistura e, depois, passe no coco ralado.

Nota

Como sempre, a doçaria atribui nomes aos seus preparos sempre com uma tendência nominativa de valorizar a afetividade. Assim, o pão lua-de-mel quer celebrar a doçura e o afeto, e isso é também confirmado pela união de dois ingredientes, o doce de leite com o coco ralado.

 

 

RAUL LODY

Museu do Açúcar e Doce (MAD) - foto Jorge Sabino

Um Doce tropical para a ceia de Natal

Sem dúvida, as comidas são profundamente simbolizadoras porque cada comida é verdadeiramente um texto visual e estético, além de ser nutricional. Cada comida é capaz de estabelecer muitas conexões especiais, como acontece com as comidas que identificam cada celebração, e para se viver a festa é preciso comer a festa.

O Brasil um país multicultural, e as muitas festas populares e tradicionais, nas quais a maioria é de vocação religiosa, traduzem esta multiculturalidade. Assim, estas celebrações estão conectadas com as suas bases étnicas e históricas, especialmente as celebrações do Ciclo Natalino.

Originalmente, a maioria dos modelos de festejar o Natal, em âmbito doméstico e familiar, e mesmo comunitário, busca reproduzir os cardápios com as tendências gastronômicas do hemisfério Norte; especialmente da península ibérica, por causa da nossa forte ligação com as bases da cultura portuguesa.

Contudo, esses lugares na época do Natal estão em pleno inverno, e o que é oferecido nos cardápios natalinos traduzem esse ambiente do inverno. E é por isso que encontramos muitas frutas secas, o tradicional bacalhau em muitas receitas; diferentes tipos de aves; cabrito; porco; tudo sendo servido com molhos feitos à base de gorduras. Também, há as frituras, como as rabanadas, um aproveitamento do pão que é embebido em leite e ovos, e depois estas fatias fritas são pulverizadas com açúcar e canela. E para complementar o cardápio, há vinhos tintos, encorpados, para harmonizar perfeitamente o frio do inverno com os assados e os doces.

Entretanto, no Brasil, cada vez mais nos seus cardápios das festas de Natal, busca-se integrar e contextualizar comidas e bebidas ao nosso ambiente tropical que está em pleno verão.

Assim, devemos optar por peixes frescos, frutas in natura, como abacaxi, manga, e outras frutas do mês de dezembro; pudins, manjares, doces de frutas tropicais, onde destacamos o coco; além de sorvetes e sucos; e certamente podemos destacar enquanto vinhos, os nossos espumantes de terroir, que são mais refrescantes e adequados a esses contextos tropicais.

Como estudo de caso, trago a receita do manjar de coco, prato clássico e tradicional das nossas mesas, e que festivamente se integra, em sabor e significado, numa opção de cardápio que pode seguir uma tendência de viver um Natal tropical.

Museu do Açúcar e Doce (MAD) - foto Jorge Sabino
Arroz doce com coco - foto Jorge Sabino

Coco: O doce sabor da Índia

É tradicional nos estudos sobre doçaria ibérica e, em especial, na doçaria brasileira, ter um olhar distanciado da Índia. Contudo, este olhar deveria ser muito próximo, pois as bases históricas e tecnológicas no fabrico de açúcar, da cana-de-açúcar, são estabelecidas na Índia. Refiro-me a Índia tropical, uma região que é muito próxima dos nossos territórios tropicais.

No Brasil, há, então, ambientes propícios para se empreender processos originalmente artesanais para fazer o caldo da cana; para fazer rapadura, melado e açúcar, entre outros produtos.

As experiências dos engenhos de açúcar, na Índia, foram orientadoras para os engenhos da Ilha da Madeira, em Portugal, e que de lá chegam para o Brasil, com os saberes tradicionais de se fazer açúcar, especialmente para o Nordeste brasileiro. E tantas foram e são as receitas de bases comuns entre a Índia e o Brasil, diálogos doces na afirmação de identidades e de patrimônios alimentares.

Entre as muitas relações gastronômicas criadas pelos ingredientes, pelas receitas e pelos usos dos ingredientes, destaca-se o coco, esta fruta tropical tão marcante nos nossos sistemas alimentares de brasileiros.

O Coco, tão nosso, tão brasileiro, tão do litoral Atlântico, porém tão asiático em nascimento e em fonte ecologicamente também tropical, que vem do outro lado desse mundo, possivelmente da Índia.

Falo do Coco nucifera L., que para os orientais é conhecido como a planta providencial, porque do coqueiro de tudo se tira proveito: para alimentação, para manufatura de vestuário, para arquitetura, além de variados objetos artesanais, entre muitos outros usos.

Independente da ocorrência do coqueiro no litoral do Panamá, quando da chegada de Cristóvão Colombo, foram os portugueses que introduziram o coqueiro em Cabo Verde, na África, e daí veio para o Brasil.

Gabriel Soares de Souza informa que: “as palmeiras dão cocos, se dão na Bahia melhor que na Índia (…) foram os primeiros cocos à Bahia de Cabo Verde donde se enchem a terra e onde frutifica dos cinco para os seis anos”. (Souza, Soares de. Notícias do Brasil. São Paulo. s/d)

Na cozinha brasileira, os produtos vindos do coco dão um sentimento e um reconhecimento nativo. Coco para tantos pratos: arroz de coco, feijão de coco, bredo de coco, sururu de coco, tapioca ensopada, camarão de coco, peixe de coco, farofa de coco para acompanhar o pirarucu; pedaços de coco nos balaios juntamente com as pipocas em honra ao orixá Omolu. Também, sobre milho vermelho cozido, tiras generosas do coco para formar a receita do axoxô, prato mais apreciado do orixá Oxóssi – Odé – o caçador.

Ainda, nas receitas de arroz-doce, no tão tradicional cuscuz de farinha de milho, tão nosso, tão brasileiro, e que traz profundas lembranças das técnicas culinárias do Magreb, povos e culturas do norte do continente africano, da região do mediterrâneo.

Um outro exemplo que mostra as fortes relações das cozinhas da Índia tropical com o Brasil está em um dos doces mais populares, refiro-me ao doce de banana de rodela ou de rodelinha, geralmente acrescido de cravo, cravo da Índia, e canela em pau e açúcar. Sem dúvida, uma receita indiana, e que faz parte da nossa tradição de consumir este doce. Nas receitas indianas, pode-se ainda acrescentar leite de coco, cardamomo e manteiga ghee.

Assim, o coco com as suas variadas interpretações, tecnologias artesanais de preparo, faz com que se aproveite tudo desse, tudo o que ele possa oferecer em sabor, em adesão à mesa brasileira.

Em Açúcar (1939) de Gilberto Freyre, o autor pernambucano cita: “…biscoitos de coco, broinhas de coco, cocada, cocadinha, doce de coco, sabongo…”

Ainda, destaque para o doce “sabongo”, receita que traz a ancestralidade de unir coco e açúcar. Entretanto, cria-se uma mistura que se torna famosa, a “tão celebrada cocada”. A nossa brasileiríssima cocada.

Certamente, a cocada é uma das referências mais imediatas da cozinha brasileira quando se pensa no coco. Segundo a receita de Gilberto Freyre no seu livro “Açúcar”, há uma proporção de um quilo de açúcar para um coco.

Trabalha-se a calda, adiciona-se o coco, mantêm-se sempre o olhar vigilante e sensível de quem sabe fazer doce, e percebe a forma, o cheiro, o ponto em que essa mistura se torna a cocada; para aí descansar sobre tábua de madeira até esfriar, e então ser cortada. Observa Gilberto: “põe-se ao sol para secar” (Açúcar, 1939).

Também, é comum o uso do doce de coco para recheios, para trazer o sabor do litoral ou o sabor tropical; ou, ainda, o coco ralado para as coberturas, numa proposta estética do branco dominante, que vem do nosso tão estimado Coco nucifera L.

Assim, o coco, inicialmente exótico como a jaca, a manga, a fruta-pão, a carambola, a graviola; entre tantas outras que se tornaram nossos por pertencimento, que se abrasileiraram, chegaram aqui para formar sistemas alimentares extremamente simbólicos e representativos daquilo que consideramos genuinamente brasileiro.

 

 

RAUL LODY