Categoria: Mostra temporária

foto Jorge Sabino

O “doce” Museu da Gastronomia Baiana

A cana-de-açúcar é uma gramínea da Nova Guiné que circulou pelo Oriente, e foi domesticada e interpretada em produtos como o melado, a rapadura e o açúcar.

A colônia portuguesa, o Brasil, ganha o mercado como a maior produtor de açúcar. Isto impõe novas relações econômicas, políticas e comercias, no Ocidente. Isto também muda os hábitos alimentares, e faz ampliar as receitas e as criações doces.

O doce tem que comover o sentimento, manifestar uma estética própria; e assim ser reconhecido, ou mesmo apresentado, para, então, depois de comer com os olhos, comer o doce por inteiro, numa verdadeira celebração dos ingredientes. E ainda ter a percepção se o doce é muito ou pouco doce.

Sem dúvida, o entendimento do que é doce é um sentimento acumulado na civilização, na história, e nos muitos processos que interpretam essa sensação que é do gosto, e que também, antes de tudo, é um conceito da cultura.

O brasileiro gosta de doce, e se identifica com ele. O sentido de doce está nas memórias, na sensação dos paladares, nas referências de afeto, e no reconhecimento da casa e da família.

Assim, o Museu da Gastronomia Baiana, do Senac Bahia, criado em 15/08/2006, museu pioneiro no Brasil e na América Latina, dedica parte do seu amplíssimo cardápio do Restaurante Escola Museu a doçaria baiana. Porque este museu é um museu de profunda interação entre o público e os seus acervos. São 7 espaços abertos ao público, inclusive a primeira Galeria de Art Food no Brasil.

Comer os doces no Museu, não é apenas uma refeição, é um amplo e complexo processo de conexões entre os sabores e a Bahia. Cocadas, quindim, manjar de coco, ambrosia, doces de banana e de caju, fazem as experiências que se ampliam nas histórias de cada visitante, que verdadeiramente come o Museu.

RAUL LODY

 

 

Galeria fotos de Jorge Sabino

 

 

Para comer a doçaria barroca - foto Jorge Sabino

Para comer a doçaria barroca

O Barroco é um estilo artístico que começa na Europa, na Itália, a partir do final do século XVI, estendendo-se por outros países, povos e culturas, inclusive nas colônias de Portugal, chegando ao Brasil.

O Barroco teve seu esplendor nos séculos XVII e XVIII, valorizando o luxo por meio de uso de dourados, no emprego de muitos elementos decorativos, voltando-se a mais ampla e alegórica celebração da fé. É o ouro que invade as igrejas, que chega, que chega aos palácios, as indumentárias atuando nos hábitos e nos costumes, valorizando o trabalho dos escultores, dos joalheiros, dos costureiros, dos músicos entre outros ofícios para louvar Deus

O estilo Barroco no Brasil é chamado de tardio por ter se fixado, especialmente nas igrejas, nos séculos XVIII e início do XIX chamado também de arte colonial. Assim, marcou imaginários perante a fé e tocou outras manifestações como técnicas artesanais que possibilitavam revelar os desenhos, os volumes e os materiais que pudessem traduzir este estilo nas casas, nas mobílias, nas roupas, nos objetos de barro, madeira, metais, tecidos entre outros.

Certamente o Barroco fixou-se nas classes detentoras do poder econômico: clero e nobreza, chegando aos demais segmentos sociais, principalmente pelo trabalho, pelas técnicas artesanais, influenciando comportamentos e escolhas de materiais e produtos.

Afirma-se que o Barroco está e compõe a nossa arte popular, especialmente no artesanato de rendas e bordados, nos entalhes sobre madeira de muitos escultores, na pintura entre outras formas de expressar luxo, riqueza por meio de elementos visuais que trazem motivos recorrentes às igrejas coloniais, as roupas e aos objetos que bem definem um estilo que também revelava novos conceitos de morar e de se relacionar com o corpo.

Nesses ambientes de arte e de poder econômico quero trazer a doçaria do Brasil, sendo esse pais o maior produtor de açúcar, em especial no século XVII, e assim manifestando receitas adaptadas, substituindo o trigo pela mandioca, adaptando, recriando, criando doces.

O doce é uma comida que assume conceitos estéticos especiais, porque o doce tem que mostrar beleza, harmonia, para assim ser verdadeiramente um doce.

Das receitas medievais dos conventos ibéricos, fundadas nas gemas, nas claras nas amêndoas, no cravo, na noz- moscada, na canela e no açúcar misturavam-se na corte, nas confeitarias, para os dias de festa, de celebração.

No caso do Brasil barroco vê-se uma grande produção e criação de bolos, especialmente no Nordeste, pois os bolos identificam os engenhos de açúcar, enquanto verdadeiros brasões construídos nas receitas particulares e autorais, que são essencialmente simbólicas de uma história e de uma família.

A marmelada, o caju e a goiabada transformaram-se desde os tempos coloniais nos grandes doces das casas- grande (…)
Gilberto Freyre

Totalmente integrada a produção de açúcar no Nordeste é a produção de doces com tendências nacionais que dialogam profundamente com as receitas do outro lado do atlântico, com Portugal em especial.

O luxo da mesa brasileira _da mesa das casas – grandes _ em dias de festa(…) Principalmente o luxo da sobremesa, dos doces e das guloseimas de açúcar.
Gilberto Freyre

E assim, uma história social e econômica que nasce na plantation da cana sacarina, na grande produção de mel de engenho, da rapadura e do açúcar está a grande base etno alimentar da nossa doçaria tão ampla, diversa e plural.

Uma doçaria que conversa com as volutas, com as talhas douradas, com os elementos do imaginário barroco pronto para ser comido em cada doce, em cada pedaço do barroco açucarado que vai à boca.

RAUL LODY

 

GALERIA DOCES BARROCOS

fotos Jorge Sabino

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Museu do Açúcar e Doce

Fruteira colorida

Em tempos de mudanças climáticas muitas sazonalidades típicas sofrem alguma alteração.

Não diferente encontramos nas frutas natalinas uma perenidade diferente.

Nesse artigo Eduardo Gazal, que também fez as fotos conta um pouco desse cenário em Recife, Pernambuco.

 

Diz Gazal:

“Encontrar uma peça de louça com frutas variadas em nossa cozinha é muito importante para meus familiares.

Estamos no terceiro mês do ano de 2026 e as ofertas de frutas natalinas continua alta em Recife.

Acredito que seja um pouco diferente em outras regiões do Brasil, mas devido ao fato de ser uma cidade muito grande nossos entrepostos de abastecimentos estão repletos.

Vamos comemorar e aproveitar, afinal ainda temos uma boa opção para os amantes das frutas natalinas.”

 

Boa diversão!

 

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Fotos Maria Gazal

Com nome inglês, mas com doces típicos

Fotos Maria Gazal – Texto Eduardo Gazal

 

Visitar uma Doceria e permanecer no local aproveitando cada minuto foi uma experiência muito gratificante.

Aconteceu recentemente na cidade pernambucana de Bonito, conhecida por suas cachoeiras.

A Doceria é um ponto de encontro na cidade. Fica localizada na região central, junto à uma belíssima igreja, formando um cenário muito agradável.

Para deleite dos frequentadores a combinação doces / chocolate quente é a pedida certa.

Degustar vagarosamente é necessário, o cenário interno é muito belo e temos uma vista bacana de Bonito, principalmente no cair do dia e em noites tranquilas, típicas de cidades do interior do país.

Registrar os momentos e repassar adiante foi meu único pensamento.

Aproveitem as imagens.

 

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SERVIÇO
Mommy Brownie
Praça da Matriz 76 – Bonito – PE

Daniel do doce - foto Eduardo Gazal

Cocadas, cajus adocicados e quebra-queixos

Daniel do doce e sua família são reverenciados por sua dedicação na arte da doçaria popular.

Um legado.

Seu ponto de vendas está situado no bairro da Ilha do Leite, atualmente conhecido como polo médico do Recife.

Daniel é referência na localidade e responsável por entregar as delícias doces aos frequentadores da região.

Seus principais itens para divertir os paladares são as cocadas, cajus adocicados e o doce japonês, também conhecido como quebra-queixo.

Para registro deste encontro inusitado consegui algumas fotos e um web vídeo.

Aproveitem!

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Assista o Daniel do Doce em ação, em filmagem de Eduardo Gazal.

Arroz doce com coco - foto Jorge Sabino

Coco: O doce sabor da Índia

É tradicional nos estudos sobre doçaria ibérica e, em especial, na doçaria brasileira, ter um olhar distanciado da Índia. Contudo, este olhar deveria ser muito próximo, pois as bases históricas e tecnológicas no fabrico de açúcar, da cana-de-açúcar, são estabelecidas na Índia. Refiro-me a Índia tropical, uma região que é muito próxima dos nossos territórios tropicais.

No Brasil, há, então, ambientes propícios para se empreender processos originalmente artesanais para fazer o caldo da cana; para fazer rapadura, melado e açúcar, entre outros produtos.

As experiências dos engenhos de açúcar, na Índia, foram orientadoras para os engenhos da Ilha da Madeira, em Portugal, e que de lá chegam para o Brasil, com os saberes tradicionais de se fazer açúcar, especialmente para o Nordeste brasileiro. E tantas foram e são as receitas de bases comuns entre a Índia e o Brasil, diálogos doces na afirmação de identidades e de patrimônios alimentares.

Entre as muitas relações gastronômicas criadas pelos ingredientes, pelas receitas e pelos usos dos ingredientes, destaca-se o coco, esta fruta tropical tão marcante nos nossos sistemas alimentares de brasileiros.

O Coco, tão nosso, tão brasileiro, tão do litoral Atlântico, porém tão asiático em nascimento e em fonte ecologicamente também tropical, que vem do outro lado desse mundo, possivelmente da Índia.

Falo do Coco nucifera L., que para os orientais é conhecido como a planta providencial, porque do coqueiro de tudo se tira proveito: para alimentação, para manufatura de vestuário, para arquitetura, além de variados objetos artesanais, entre muitos outros usos.

Independente da ocorrência do coqueiro no litoral do Panamá, quando da chegada de Cristóvão Colombo, foram os portugueses que introduziram o coqueiro em Cabo Verde, na África, e daí veio para o Brasil.

Gabriel Soares de Souza informa que: “as palmeiras dão cocos, se dão na Bahia melhor que na Índia (…) foram os primeiros cocos à Bahia de Cabo Verde donde se enchem a terra e onde frutifica dos cinco para os seis anos”. (Souza, Soares de. Notícias do Brasil. São Paulo. s/d)

Na cozinha brasileira, os produtos vindos do coco dão um sentimento e um reconhecimento nativo. Coco para tantos pratos: arroz de coco, feijão de coco, bredo de coco, sururu de coco, tapioca ensopada, camarão de coco, peixe de coco, farofa de coco para acompanhar o pirarucu; pedaços de coco nos balaios juntamente com as pipocas em honra ao orixá Omolu. Também, sobre milho vermelho cozido, tiras generosas do coco para formar a receita do axoxô, prato mais apreciado do orixá Oxóssi – Odé – o caçador.

Ainda, nas receitas de arroz-doce, no tão tradicional cuscuz de farinha de milho, tão nosso, tão brasileiro, e que traz profundas lembranças das técnicas culinárias do Magreb, povos e culturas do norte do continente africano, da região do mediterrâneo.

Um outro exemplo que mostra as fortes relações das cozinhas da Índia tropical com o Brasil está em um dos doces mais populares, refiro-me ao doce de banana de rodela ou de rodelinha, geralmente acrescido de cravo, cravo da Índia, e canela em pau e açúcar. Sem dúvida, uma receita indiana, e que faz parte da nossa tradição de consumir este doce. Nas receitas indianas, pode-se ainda acrescentar leite de coco, cardamomo e manteiga ghee.

Assim, o coco com as suas variadas interpretações, tecnologias artesanais de preparo, faz com que se aproveite tudo desse, tudo o que ele possa oferecer em sabor, em adesão à mesa brasileira.

Em Açúcar (1939) de Gilberto Freyre, o autor pernambucano cita: “…biscoitos de coco, broinhas de coco, cocada, cocadinha, doce de coco, sabongo…”

Ainda, destaque para o doce “sabongo”, receita que traz a ancestralidade de unir coco e açúcar. Entretanto, cria-se uma mistura que se torna famosa, a “tão celebrada cocada”. A nossa brasileiríssima cocada.

Certamente, a cocada é uma das referências mais imediatas da cozinha brasileira quando se pensa no coco. Segundo a receita de Gilberto Freyre no seu livro “Açúcar”, há uma proporção de um quilo de açúcar para um coco.

Trabalha-se a calda, adiciona-se o coco, mantêm-se sempre o olhar vigilante e sensível de quem sabe fazer doce, e percebe a forma, o cheiro, o ponto em que essa mistura se torna a cocada; para aí descansar sobre tábua de madeira até esfriar, e então ser cortada. Observa Gilberto: “põe-se ao sol para secar” (Açúcar, 1939).

Também, é comum o uso do doce de coco para recheios, para trazer o sabor do litoral ou o sabor tropical; ou, ainda, o coco ralado para as coberturas, numa proposta estética do branco dominante, que vem do nosso tão estimado Coco nucifera L.

Assim, o coco, inicialmente exótico como a jaca, a manga, a fruta-pão, a carambola, a graviola; entre tantas outras que se tornaram nossos por pertencimento, que se abrasileiraram, chegaram aqui para formar sistemas alimentares extremamente simbólicos e representativos daquilo que consideramos genuinamente brasileiro.

 

 

RAUL LODY

Tareco - Foto Eduardo Gazal

Tareco – na mesa do rico e na mesa do pobre

Texto e fotos: Eduardo Gazal

Dentro da doçaria pernambucana, que se estende aos estados vizinhos, encontraremos o tareco.

São biscoitinhos doces, com formato arredondado e coloração dourada.

Todos conhecem, agrada às crianças, adultos e pessoas com idades mais avançadas.

Seu sabor é inconfundível e sofre pequenas alterações independentemente dos locais de sua manufatura.

Encontramos para venda em padarias, mercadinhos e nas estradas.

O tareco é unanimidade como guloseima doce. Um verdadeiro ‘diverte bocas’.

 

 

 

Para o embasamento mais acadêmico, o livro Dicionário do Folclore Brasileiro (em sua 12ª edição, de 2012), de Luís da Câmara Cascudo, relata o seguinte:

“Tareco. Bolinho torrado, feito de farinha de trigo, ovos e açúcar, redondinhos e saborosos. Indústria pernambucana, que se popularizou pelos estados vizinhos, o tareco é oferecido aos passageiros dos comboios que demandam o Recife, e conhecido por todas as idades. Data, ao que parece, dos primeiros anos do século XX”.

 

Tareco - Foto Eduardo Gazal
Dicionário do Folclore Brasileiro, Luis da Câmara Cascudo – Foto Eduardo Gazal

 

 

 

 

Natal Tropical - MAD - Foto Jorge Sabino

Um Natal com doces de frutas tropicais

Os imaginários tradicionais e populares trazem muitas referências sobre comidas e bebidas que devem compor as tão celebradas ceias de Natal. Contudo, estes imaginários referem-se a dietas alimentares do hemisfério norte.

Lá, onde neste momento, dezembro é o inverno, onde muitas localidades têm inverno rigoroso, repleto de neve. Cá, no hemisfério sul, vivemos um verão pleno, muito sol e calor, sendo esta também a temporada de muitas frutas, como a manga, o caju, o abacaxi, entre outras que compõem os nossos hábitos alimentares durante todo o ano. Neste ambiente de frutas, quero destacar a banana, na sua variedade de tipos e de sabores. Certamente uma fruta tropical emblemática.

Desse modo, em dezembro é comum realizarmos as nossas ceias com assados de carnes de diferentes tipos, com molhos acrescidos de muita gordura; além disso, acrescentamos os doces estão repletos de cremes, as frutas cristalizadas, porque copiamos as celebrações da Europa, onde no inverno as frutas são mais raras, e por isso são glaceadas para serem consumidas nas festas de fim de ano. As bebidas são também a base de vinhos tintos, licores e o outros mais adequados a estação de inverno. Também, compõem esses cardápios algumas frutas secas como: nozes, amêndoas, avelãs, uvas em forma de passas; entre outras comidas muito mais apropriadas para o inverno.

Então, porque não pensar em opções de ceias mais adequadas ao nosso verão, verão sempre muito quente, onde as comidas e as bebidas devem ser muito mais refrescantes, tropicalizadas, para assim serem melhor apreciadas integradas ao nosso meio ambiente.

Ainda, neste olhar sobre a ceia tropical de Natal, quero destacar como é interessante gastronomicamente, e certamente muito saboroso, o consumo de frutas in natura, para aproveitarmos o seu sabor na intensidade, perceber a beleza da cor e da textura de cada fruta.

Certamente são tantas as opções de frutas, frutas do cotidiano, frutas que fazem parte das nossas referências de brasileiros. E a banana está integrada neste amplo imaginário que idealiza nesta fruta uma imagem do que é tropical. E mesmo ela sendo procedente da Ásia, a banana passou a ser uma fruta assumidamente brasileira.

Ela é um verdadeiro ícone tropical. A banana traz sua luxuriante cor imersa no sol. Isto tudo faz com que haja um entendimento, e uma ampla agricultura de povos nativos da América Latina e do Caribe idealizados como paraísos tropicais.

Gilberto Freyre tem assumidamente um método preferido de análise social que se dá por meio da comida. Ele busca criar uma verdadeira mentalidade de nacionalização de produtos, de cozinhas, de receitas; e de hábitos alimentares que identifiquem o brasileiro. É uma verdadeira busca por comidas de identidade.

“Porque em relação a natureza, não pensamos ainda, nesses, quatrocentos anos, de inquilinos a donos (…) Não merecemos a palmeira, nem o juazeiro, nem o tamarineiro. Merecemos, talvez o mamoeiro e a bananeira, já muito nossas”.
(Freyre, Gilberto. Um paradoxo para o Recife In “Diário de Pernambuco”, anos 1920)

Gilberto mostra as opções de frutas da região e de frutas exóticas, e mostra também que estas frutas devem assumir suas próprias falas culinárias, integrar os hábitos, e ampliar as opções dos alimentos. Tudo localiza um sentimento que leva a valorização dos produtos locais, e traz a comida como uma referência de lugar, uma indicação de terroir.

Assim, há uma leitura avançada, para os anos 1920, sobre ecologia e sobre a comida nos contextos da cultura e, em especial, do patrimônio alimentar brasileiro. Mais tarde, nos anos 1930, ele publica pela primeira vez em língua portuguesa a palavra ecologia no seu livro “Nordeste”, e esta obra pioneira localiza uma civilização a partir de uma fruta exótica, a cana sacarina.

O açúcar da cana de açúcar une-se às frutas nativas para formarem uma rica e diversa cozinha de doces, de doces ibéricos que foram tropicalizados, abrasileirados.

Gilberto aponta para os hábitos alimentares locais, e dá destaque para a banana, fruta há muito integrada à mesa regional. Fruta do cotidiano e que está nas mesas desde o café da manhã até as sobremesas mais elaboradas, como a tão estimada “cartola”. Preparo feito a partir da banana-prata, bem madura; queijo de manteiga, açúcar e canela.

As frutas tropicais nativas como o caju, o abacaxi, a pitanga, a goiaba, o araçá, misturam-se com outras frutas tropicais exóticas, vindas do Oriente, como a jaca, a manga, a graviola, a fruta-pão, o jambo, entre tantas que já se abrasileiraram, e que fizeram do Brasil seu território de representação e de identidade.

Com diferentes frutas, há o costume de se fazer duas preparações culinárias tradicionais, as frutas em calda e os chamados doces de “massa”. Isto mostra também os diferentes aproveitamentos das frutas, pois as receitas de doces são formas de conservar e ampliar o consumo das frutas.

Há os doces em calda, muitas vezes acompanhados de complementos como queijos. São doces para serem apreciados dentro de compoteiras de vidro ou de cristal. As frutas nas caldas, em ponto de fio, quase transparentes, para poder revelarem a cor e o brilho de cada fruta.

E ainda, há outras percepções que os doces promovem durante o seu preparo, são os odores, seja da fruta ou das especiarias como o cravo, a canela, ou outra; que faz quem está dentro da casa ou da cozinha ir até o fogão, e reconhecer a assinatura da doceira daquela receita familiar.

Sem dúvida, estão nas receitas familiares as mais importantes memórias pessoais; e, desta maneira, cada prato traz referências, e sentidos especiais, para a ritualidade da casa e das relações hierarquizadas da própria família. A receita do doce de banana de rodelinha, uma receita feita com quantidades e modos subjetivos, pessoais, possibilita que este doce tenha tantos acréscimos e assinaturas de temperos, de especiarias, que marcam cada preparo, cada maneira de se fazer este doce.

Por exemplo, os memoriais “Cadernos de receitas de D. Magdalena”, mulher de Gilberto, mostra uma receita do doce de banana de rodelinha que era feita na sua casa em Apipucos: duas dúzias de bananas-prata, maduras, cortadas em rodelas, três xícaras de açúcar, e água. Cozinhe as bananas com o açúcar em água suficiente que dê para cobrir. Adicione cravo, se quiser. (Receita do livro “À Mesa com Gilberto Freyre”. Org. Raul Lody. Ed. Senac Nacional, 2004).

Assim, geralmente os doces de frutas são feitos de forma muito simples, e o ponto do doce é que dá a qualidade autoral e emocional ao doce.

São tantas opções de doces de frutas, doces também para serem apreciados na sua estética, na beleza da sua cor, da sua forma; beleza que sugere o seu consumo, porque tudo isso se inclui no entendimento pleno da alimentação.
E ainda mais quando essa alimentação é festiva e de celebração, e aí novamente trago o amplo diverso processo de festejar o Natal, certamente festejar pela boca, com as comidas e com as bebidas mais adequadas ao nosso clima.

Certamente a presença de doces de frutas, de doces festivos do Natal com as frutas tropicais, fazem desta festa, uma festa mais nossa, mais brasileira, multiculturalmente brasileira.

RAUL LODY

MAD (Museu do Açúcar e Doce) - foto Eduardo Gazal

Doces Europeus

Fotos – Eduardo Gazal
Texto – Maria Gazal (Cineasta)

 

Os doces europeus, que foram incorporados à doçaria brasileira ao longo dos séculos, fazem parte de uma rica tradição gastronômica que se mesclou e incorporou ingredientes.

Presentes em diversos contextos na Europa, desde aeroportos até restaurantes e eventos sociais, essas iguarias são verdadeiras primazias apreciadas por todos.

A travessia do Atlântico não parece mais uma tarefa difícil, porém a história dessas delícias é formada por uma longa jornada de experiências que revolucionaram o paladar local e mundial.

 

 

 

 

 

Bolo Luiz Felipe, São João do Tauape, Fortaleza, CE. Foto: Teresinha Sampaio.

Luiz Felipe, uma joia da cozinha de engenho

Vem de um engenho de cana-de-açúcar das antigas terras de Jaboatão um icônico bolo de queijo, que é a mais perfeita conjunção entre o doce e o salgado. Trata-se do fabuloso Bolo Luiz Felipe*, uma joia da culinária da Zona da Mata de Pernambuco, batizado em homenagem a um político pernambucano do século XIX, Luiz Felipe de Souza Leão, senhor dos engenhos Tapera e Santo Inácio.